segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Barroco




  • A temática e a linguagem barroca expressam os conflitos experimentados pelo homem do século XVII.
  • A linguagem barroca caracteriza-se pelo emprego de figuras, como a comparação e a alegoria, entre outras.
  • A antítese e o paradoxo são as figuras que a linguagem barroca emprega para expressar a divisão entre o mundo material e o mundo espiritual.
  • As poesias barrocas mantêm uma estrutura formal e rítmica regular.
  • Nas poesias barrocas, é muito comum o poeta enfatizar as ideias opostas.
  • A poesia de Gregório de Matos, associada ao barroco, pode ser dividida em lírica, religiosa e satírica.
  • Gregório de Matos teve grande capacidade de fixar num lampejo os vícios, os ridículos, os desmandos do poder local, valendo-se para isso do engenho artificioso que caracterizava o estilo da época.
  • A sátira de Gregório de Matos investe contra as oportunistas operações dos mercados da época, valendo-se, para isso, das engenhosas construções barrocas, como no poema seguinte:



      O açúcar já se acabou? Baixou.
      E o dinheiro se extinguiu? Subiu.
      Logo já convalesceu? Morreu.
     
      À Bahia aconteceu
      o que a um doente acontece,
      cai na cama, o mal lhe cresce,
      baixou, subiu e morreu.

  • O homem barroco vivia à busca da unidade, seu espírito era dividido entre o idealismo e o apelo dos sentidos, como exemplificam os versos seguintes.


      Anjo no nome, Angélica na cara!
      Isso é ser flor, e Anjo juntamente:
      Ser Angélica e Anjo florente,
      Em quem, senão em vós, se uniformara?

  • O poeta barroco usava do jogo metafórico próprio do Barroco, a respeito da fugacidade da vida, exaltando o gozo do momento, como exemplificam os versos seguintes:


       Goza, goza da flor da mocidade,
      que o tempo trota a toda ligeireza,
      e imprime em toda a flor sua pisada.

      Ó, não aguardes que a madura idade
      te converta essa flor, essa beleza,
     em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

  • Sabe-se que o Barroco produziu uma literatura que expressa o conflito em face da vida. Em alguns versos se verificam alguns traços desse conflito, a ponto de ele tentar a fusão dos opostos, como em “E na alegria, sinta-se tristeza”
  • Características da obra do poeta barroco Gregório de Matos: Sentido vivo de pecado aliado à busca do perdão e da pureza espiritual; Poesia com força crítica poderosa, pessoal e social, chegando à irreverência e obscenidade; Realça a beleza física da amada e a transitoriedade dessa beleza; Tentativa de conciliar elementos contraditórios e a busca da unidade sob a diversidade.
     A cada canto um grande conselheiro, 
    Que nos quer governar cabana, e vinha, 
    Não sabem governar sua cozinha
    E podem governar o mundo inteiro. 
   (...)
    Estupendas usuras nos mercados, 
    Todos, os que não furtam, muito pobres,
    E eis aqui a Cidade da Bahia.
  • O poema, escrito por Gregório de Matos no século XVII, representa, de maneira satírica, os governantes e a desonestidade na Bahia colonial. 


Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O Velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa,
Mais isento se mostra o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.

MATOS, Gregório de. Poemas. Belo Horizonte: Autêntica Ed., 1998. p. 56.

Glossário:
carepa: caspa, sujeira.
galorpa: instrumento utilizado pelos carpinteiros para aplainar madeira.
increpar: censurar

Esse poema pode ser considerado exemplar da estética barroca porque manifesta o rebuscamento próprio do Cultismo.   



Considerando a poesia de Gregório de Matos e o momento literário em que sua obra se insere, pode-se dizer o seguinte:
    Apresentando a luta do homem no embate entre a carne e o espírito, a terra e o céu, o presente e a eternidade, os poemas religiosos do autor correspondem à sensibilidade da época e encontram paralelo na obra de um seu contemporâneo, Padre Antônio Vieira.
    
     Os poemas erótico-irônicos são um exemplo da versatilidade do poeta, mas não são representativos da melhor poesia do autor, mas apresentam a mesma sofisticação e riqueza de recursos poéticos que os poemas líricos ou religiosos apresentam.

    Como bom exemplo da poesia barroca, a poesia do autor incrementa e exagera alguns recursos poéticos, deixando sua linguagem mais rebuscada e enredada pelo uso de figuras de linguagem raras e de resultados tortuosos.

     A presença do elemento mulato nessa poesia resgata para a literatura uma dimensão social problemática da sociedade baiana da época: num país de escravos, o mestiço é um ser em conflito, vítima e algoz em uma sociedade violentamente desigual.


Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,

Da vossa alta piedade me despido,

Porque, quanto mais tenho delinquido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.



Gregório de Matos, “A Jesus Cristo Nosso Senhor”



Observação:

hei pecado = tenho pecado

delinquido = agido de modo errado





Nessa estrofe, o poeta confessa-se pecador e expressa a convicção de que será abençoado com a graça divina.   
 

Um comentário:

Sandro Silva disse...

Fascinante o seu trabalho professor Dilson Catarino. Estou conhecendo o site agora e já vejo que me será de muita utilidade. Obrigado.