sexta-feira, 29 de julho de 2016

Onde, aonde, donde e de onde

O advérbio ou pronome relativo "onde" indica circunstância de lugar em que se exige a preposicão "em":

- Onde estará a princesa? (Está em algum lugar)
- A escola onde estive ontem é excelente! (Estive em algum lugar)

Na indicação de destino, com os verbos "ir, vir, voltar, chegar, cair, comparecer, dirigir-se", que exigem a preposição "a", no lugar de "onde" usa-se "aonde":

- Aonde você foi? (Foi a algum lugar)
- A escola aonde fui é excelente. (Fui a algum lugar)

Na indicação de procedência, origem, com verbos que exigem a preposição "de", no lugar de "onde" usa-se "donde". Pode-se também usar separadamente  "de onde":

- Donde surgiu você? (Surgiu de algum lugar)
- A cidade donde cheguei é magnífica. (Cheguei de algum lugar)

Dias desses disseram-me que uma professora corrigiu um texto dum aluno que havia usado "donde" alegando que tal palavra tinha caído em desuso. Ocorre, porém, que, apesar de ser pouco usada, é lícito seu uso. Infelizmente estava equivocada a professora. 

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Das 7h às 8h / De 7h a 8h

Já vimos que o adequado, quanto aos dias da semana, é escrever sem crase um intervalo de tempo de um dia a outro, como "de segunda a sexta". E num intervalo de tempo de uma hora a outra? A regra é a mesma? 

Deve-se observar a primeira hora apresentada. Se houver artigo antes da primeira, haverá antes da segunda também; se não houver artigo antes da primeira, tampouco haverá antes da segunda. Por exemplo:

- As aulas ocorrem das 8h às 12h. 

Como antes de "8h" há artigo - "das = de (preposição) + as (artigo) -, antes de "12h" também o haverá, juntamente com a preposição "a", por isso o acento indicador de crase. 

- As aulas ocorrem de 8h a 12h. 

Como antes de "8h" não há artigo, e sim somente a preposição "de", antes de "12h" também não haverá, e sim só a preposição "a". Não há, portanto, o acento indicador de crase. 

Sabe aqueles fôlderes de eventos, congressos e conferências? E mesmo os horários de aulas afixados em editais? Além das duas possibilidades vistas, há uma terceira, que é a não utilização de preposição nem de artigo antes da primeira hora e só a preposição "a", sem crase, antes da segunda. Por exemplo:

- Das 8h às 12h. 
- De 8h a 12h. 
- 8h a 12h. 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Segunda a Sexta

Tenho notado uma inadequação gramatical nos estabelecimentos comerciais de Londrina quanto ao uso do acento indicador de crase entre os nomes dos dias da semana quando se determina um intervalo de tempo de um dia a outro. 

Qual o adequado? "de segunda a sexta" ou "de segunda à sexta"?

Deve-se observar o primeiro dia apresentado. Se houver artigo antes dele, haverá antes do segundo também; se não houver artigo antes do primeiro, tampouco haverá antes do segundo. Por exemplo:

- Da primeira segunda-feira do mês à segunda terça-feira, haverá uma promoção...

Como antes de "segunda-feira" há artigo - "da = de (preposição) + a (artigo) -, antes de "terça-feira" também o haverá, juntamente com a preposição "a", por isso o acento indicador de crase. Convenhamos que dificilmente se escreverá frase como essa. 

- Descontos de 30% de segunda a sexta. 

Como antes de "segunda" não há artigo, e sim somente a preposição "de", antes de "sexta" também não haverá, e sim só a preposição "a". Não há, portanto, o acento indicador de crase. 

terça-feira, 26 de julho de 2016

Os avós, as avós e os avôs.

Hoje é dia dos avós.
Os homens são os avôs, as mulheres, as avós e os homens e as mulheres, os avós.

...e nem...

Conjunção é a classe de palavras que serve para unir palavras ou orações com determinado valor semântico. Por exemplo, "pois" une duas orações indicando explicação; "logo", conclusão; "porém", adversidade. 

Há duas conjunções semelhantes, que, muitas vezes, são usadas, de maneira inadequada, sequencialmente: "e" e "nem". 

Até Milton Nascimento, um dos grandes nomes da MP de todos os tempos, na música "Travessia", cometeu o equívoco - mas ele pode, até por haver a licença poética, permissão para usar o inadequado -:

"Quando você foi embora / Fez-se noite em meu viver / Forte eu sou mas não tem jeito, / Hoje eu tenho que chorar / Minha casa não é minha, / E nem é meu este lugar / Estou só e não resisto, / Muito tenho pra falar"

Observe que, em todos os versos, a sétima sílaba é tônica (O contar sílabas poéticas se chama "escansão". Quando uma sílaba termina em vogal e a subsequente se inicia por vogal átona, conta-se uma só: "noi-teem-meu-vi-ver"; "for-teeu-sou"; "ho-jeeu-te-nho"). 

O único verso em que a sétima não é tônica é o iniciado por "e nem". Isso ocorre exatamente porque Milton foi traído pelo vício de linguagem. Se se tirar o "e", a sétima será a tônica. 

Gramaticalmente, o que ocorre é o seguinte:

A conjunção "e" serve, segundo o dicionário Michaelis, para unir palavras ou orações que apresentam o mesmo valor sintático, indicando adição ou oposição:

- Eu e ela nos encontraremos em breve. (adição)
- Iria lá ontem, e fiquei em casa. (oposição)

A conjunção "nem" liga, ainda segundo o dicionário Michaelis, palavras ou orações em contexto negativo, indicando adição - com o mesmo valor de, principalmente, "e não" - ou alternância:

- Nem montanha nem praia, prefiro vales com rios e corredeiras. (alternância)
- Não ata nem desata. = Não ata e não desata. (adição)
 
Claro está, portanto, que essas conjunções têm valores diversos, não podendo ser usadas no mesmo contexto: "e" é usado em frases afirmativas - com exceção do "e não"; "nem", em negativas.

O uso de "e nem" é inadequado ao Português padrão. 

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A partir

Tenho visto, em estabelecimentos comerciais dos mais diversos, uma inadequação  gramatical em virtude das promoções para tentar alavancar as vendas nestes 'tempos bicudos': é o uso do acento grave - a popular "crase" - antes do verbo "partir". 

"Crase" é a fusão de dois elementos idênticos. Quando essa fusão se dá entre a preposição "a" e um artigo ou pronome demonstrativo - a, as, aquele, aquela, aquilo - deve-se usar o acento grave (à):

- Não obedecer às leis de trânsito acarreta multa. 
Nessa frase há a preposição "a" e o artigo "as", pois "quem obedece, obedece a algo" e "leis" é um substantivo feminino plural - as leis. 

- Assisti àquele filme várias vezes. 
Nessa frase há a preposição "a", pois "quem assiste, assiste a algo", e o pronome demonstrativo "aquele". 

Os artigos "a" e  "as" determinam um substantivo feminino. Claro está, portanto, que, se a palavra não for feminina, não haverá artigo e, consequentemente, não poderá haver o acento grave:

- O sol estava a pino. 
O substantivo "pino" é masculino, portanto não há artigo feminino determinando-o. 

- Darei um presente a ela. 
"Ela" é pronome pessoal, não substantivo, portanto não há artigo feminino determinando-o. 

- A partir de hoje, vou-me encontrar com ela toda semana. 
"Partir" é verbo, não substantivo, portanto não há artigo feminino determinando-o. 

- Liquidação! Preços a partir de R$10,00. 
"Partir " é verbo, não substantivo, portanto não há artigo feminino determinando-o. 

Os estabelecimentos comerciais que escrevem "a partir" com acento grave cometem uma inadequação gramatical. Que tal alertá-los quanto a isso? Se assim o fizer, estará prestando um bom serviço à Educação!

sábado, 23 de julho de 2016

Porquê x Por quê

Há quatro maneiras de se escrever o que pronunciamos de uma maneira só: porquê, por quê, por que e porque. Hoje nos ateremos às duas acentuadas:

Quando, antes dele, esteja no meio ou no final da frase, houver artigo - o, os, um, uns -, ou numeral - um, dois... - ou ainda pronome - meu, seu, esse, aquele -, deve-se usar "porquê", junto e com acento, que, com o acento, se transformou em substantivo, por isso pode ser pluralizado: porquês. 

- Não entendi o porquê de sua revolta. 
- Quantos porquês existem na Língua Portuguesa?
- Existem quatro porquês na Língua Portuguesa. 
- Quando falta ao trabalho, sempre tem um porquê na ponta da língua!

Quando o vocábulo "que" estiver sozinho ou em final de frase, será acentuado, independentemente do termo que o anteceda:

- Quê?
- Ri de quê?
- Veio até aqui para quê?
- Ela não respondeu à minha mensagem nem disse por quê.

Observe que, na última frase, se houver o artigo "o", haverá a formação de um substantivo, por isso deve-se usar "porquê":

- Ela não respondeu à minha mensagem nem disse o porquê. 

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Por que x Porque

Há várias dicas de Português pela Internet, muitas vezes postadas por alguém de boa vontade, mas sem conhecimento aprofundado da Gramática da Língua Portuguesa, o que pode acarretar um grande problema ao aflito e incauto estudante. 

Um exemplo disso é a dica sobre os usos de "porquê, por quê, por que e porque". É muito comum deparar-se com a "dica infalível" quanto ao uso de "por que", separado e sem acento, a qual diz que é ele que tem de ser usado quando estiver em início de perguntas. 

Essa afirmação estará adequada na maioria das frases, porém há casos em que outro será usado. Observe as seguintes frases:

___________ algumas pessoas apelam a entidades espirituais estranhas para conseguir o que querem?
___________ quer ser aprovado no concurso, ele apela até a entidades espirituais estranhas?

Qual tem de ser utilizado? Ambas as frases são interrogativas; ambas se iniciam por um dos porquês. Segundo a "regra infalível", tem de ser o separado e sem acento, mas somente uma o terá. Vejamos qual:

Usa-se "por que", separado e sem acento, quando "que" for pronome que pode ser substituído por "qual", "qual razão", "qual motivo". Por exemplo:

- Não sei por que ela disse aquilo.
Esse "por que" pode ser substituído por "por qual razão" ou "por qual motivo". 

- Desconheço a razão por que ela disse aquilo.
Esse "por que" pode ser substituído por "pela qual". 

Das frases apresentadas, somente a primeira pode ter a inclusão de "qual", então só ela será escrita por "por que":

- Por que algumas pessoas apelam a entidades espirituais estranhas para conseguir o que querem?
- Por qual razão algumas pessoas apelam a entidades espirituais estranhas para conseguir o que querem?

Na segunda frase não há o pronome "que", e sim há duas orações ligadas pela conjunção "porque", com a inversão delas, ou seja, a oração encabeçada pela conjunção deveria ser a segunda, mas ela inicia o período. Observe a frase na ordem direta:

- Ele apela até a entidades espirituais estranhas porque quer ser aprovado no concurso. 

É, porém, interrogativa, mas nada muda sintaticamente por isso:

- Ele apela até a entidades espirituais estranhas porque quer ser aprovado no concurso?

Com a inversão, a conjunção continua, obviamente, a ser conjunção, portanto deve ser usado "porque", junto e sem acento:

- Porque quer ser aprovado no concurso, ele apela até a entidades espirituais estranhas?

Cuidado, portanto! Não confie em toda e qualquer informação que encontrar pela Internet!!

quinta-feira, 21 de julho de 2016

éi e ói

Com a Reforma Ortográfica, perderam o acento as palavras cuja penúltima sílaba seja a mais forte - palavra paroxítona - e contenha ditongo aberto "ei" ou "oi". Caso a última sílaba seja a mais forte, o acento se mantém:

- ideia, paranoia, heroico;
- chapéu, céu, herói. 

Houve porém uma mudança no Acordo Ortográfico que afeta essa regra. É a seguinte:

- Deve-se "restabelecer o acento gráfico nos paroxítonos com os ditongos éi e ói quando incluídos na regra geral dos terminados em -r: Méier, destróier."

Ou seja, se a palavra tiver de ser acentuada por outra regra, mantém-se o acento, mesmo que haja "ei" ou  "oi" aberto na penúltima sílaba. 

Como as paroxítonas terminadas em "r" são acentuadas por regra (como em âmbar, fêmur, etc.), "Méier" e "destróier" - e qualquer outra palavra que tenha coincidência de regras - não sofrem mudança alguma, isto é, permanecem com acento. 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Ambiguidade

Na Folha de S. Paulo de 18/07/2016, havia a seguinte manchete: 

- "Só privatização está descartada, afirma chefe da Petrobras". 

O que ele disse de fato? Há duas possibilidades de interpretação:

- A privatização da Petrobras é a única ação a ser descartada; outras ações poderão ser realizadas. 
- Além de privatizar a Petrobras, outras ações poderão ser realizadas. 

Depois de ler a reportagem, chega-se à conclusão de que o chefe da Petrobras havia dito que a privatização da Petrobras é a única ação a ser descartada. Não havia necessidade, então, do uso de "só". Bastaria escrever isto:

- Privatização está descartada, afirma chefe da Petrobras. 

Alguns vocábulos, como "só" e "apenas", têm de ser muito bem analisados antes de serem usados. Observe estas orações:

- Só as garotas irão ao cinema. 
- As garotas só irão ao cinema.
- As garotas irão só ao cinema.

Em cada lugar em que "só" é utilizado, acarreta um significado diferente, por isso deve-se tomar cuidado ao usá-lo. 

Na frase apresentada o problema não é o lugar em que o "só" está, mas a diversidade de significados que ele carrega.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Depois de x Depois que

Um repórter da Globo News disse a seguinte frase: "O advogado só se manifestará depois que ver o vídeo". O uso de "depois" traz uma pequena complicaçâo, que é a formação de locução prepositiva - "depois de" - ou conjuntiva - "depois que". 

Forma-se locução prepositiva com a junção, respectivamente, de uma ou mais palavras com uma preposição. Essa junção tem o mesmo valor de preposição.  Por exemplo: 

- "a fim de", com o mesmo valor de "para";
- "abaixo de", com o mesmo valor de "sob";
- "a respeito de", com o mesmo valor de "sobre". 

Algumas locuções prepositivas agem como se fossem preposições, mas não têm correspondência com uma delas especificamente, como ocorre com "de acordo com" e com "depois de". 

Forma-se locução conjuntiva com a junção de duas ou mais palavras com o mesmo valor de uma conjunção. Por exemplo: "A fim de que"; "apesar de que"; "se bem que"; "depois que". 

O uso de uma ou de outra acarreta a mudança da estrutura verbal da oração encabeçada por elas. 

Caso se use uma conjunção ou locução conjuntiva, o verbo terá de ser conjugado no modo indicativo ou no subjuntivo. 

Caso a conjunção ou a locução conjuntiva seja substituída por uma preposição ou locução prepositiva, o verbo terá de ficar no infinitivo, flexionado ou não. O não flexionado é o terminado em -ar, -er ou -ir; o flexionado ainda recebe as desinências -es, para "tu", -mos, para "nós", -des, para "vós", e -em, para eles, elas, vocês. 

Observe estes exemplos:

- A fim de que conseguíssemos o resultado pretendido, renovamos as energias. 
Como foi usada a locução conjuntiva "a fim de que", o verbo "conseguir" foi conjugado no pretérito imperfeito do subjuntivo. 

- A fim de conseguirmos o resultado pretendido, renovamos as energias. 
Como foi usada a locução prepositiva "a fim de", o verbo "conseguir" foi conjugado no infinitivo flexionado.

Na frase dita pelo repórter, foi usada a locução conjuntiva "depois que". O verbo, portanto, teria de estar conjugado no indicativo ou no subjuntivo, mas está no infinitivo. 

O adequado, então, seria usar a locução prepositiva "depois de":

- O advogado só se manifestará depois de ver o vídeo. 

Ou conjugar o verbo adequadamente. Como a frase indica uma hipótese futura, o tempo conveniente é o futuro do subjuntivo, que é "vir":

- O advogado só se manifestará depois que vir o vídeo. 

O futuro do subjuntivo provém da terceira pessoa do plural - eles - do pretérito perfeito do indicativo, o popular passado, retirando-se a terminação "-am". Essa pessoa do verbo "ver" é "viram", pois "Ontem eles viram"; retirando-se "-am", forma-se o futuro do subjuntivo: "vir". 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Elementos repetidos

A Reforma Ortográfica sofreu modificações antes mesmo de se tornar oficial: em janeiro de 2010, a Academia Brasileira de Letras publicou 15 mudanças no Acordo Ortográfico. Entre elas está a seguinte:

Incluir no caso 1° da Base XV o emprego do hífen nos compostos formados com elementos repetidos, com ou sem alternância vocálica ou consonântica de formas onomatopeicas, por serem de natureza nominal, sem elemento de ligação, por constituírem unidade sintagmática e semântica e por manterem acento próprio: 

blá-blá-blá, reco-reco, zum-zum, zum-zum-zum, lenga-lenga, ti-ti-ti, fru-fru, pingue-pongue, lero-lero, tico-tico.

domingo, 17 de julho de 2016

Vim x Vir

A apresentadora dum programa de TV disse a seguinte frase: "Você vai sair de casa para vim enfrentar...". Logicamente ela tem conhecimento do uso adequado do verbo "vir". O que ocorreu é o que denominamos de vício de linguagem, especificamente barbarismo, que é, segundo o dicionário Michaelis, "o uso de palavras estranhas ao idioma, quer na forma, quer na significação; emprego dessas palavras que apresentam erros ortoépicos, gráficos, gramaticais e/ou semânticos". 
A forma verbal "vim" refere-se à primeira pessoa do singular (eu) do pretérito perfeito do indicativo, o popular 'passado':

- Ontem vim até aqui duas vezes. 

A forma verbal que ela deveria ter usado é a que denominamos de infinitivo não flexionado, sempre terminada em "-ar, -er, -ir", com exceção de "pôr" e seus derivados:

- Você vai sair de casa para vir enfrentar...

Quando houver preposição - "para, de, a, por, etc." - e posteriormente a ela, uma forma verbal, esta terá de estar no infinitivo, seja flexionado (que tem as desinências  "-es, -mos, -des e -em) ou não flexionado. 

- Era para ele chegar mais cedo. 
- Era para nós chegarmos mais cedo. 
- No momento de ir à forra, perdeu o ânimo. 
- Na hora de o sol se pôr, o céu fica lindo. 

sábado, 16 de julho de 2016

Hífen - regras básicas

Com a Reforma Ortográfica, nada se modificou tanto quanto as regras de hífen, que se tornaram a 'pedra no meio do caminho' daqueles que já terminaram o Ensino Médio e trabalham com a língua escrita no dia a dia (locução que perdeu os hífenes; não se escreve mais "dia-a-dia"). 

Foi perda total! Tudo que aprendemos nas carteiras escolares tem de ser esquecido, e um novo estudo deve ser realizado. E, para piorar, a Academia Brasileira de Letras demorou para divulgar oficialmente as quinze mudanças que ocorreram no Acordo Ortográfico, documento assinado pelo então Presidente da República em setembro de 2009; somente em janeiro de 2010 tais mudanças vieram a público - Veja em "Nota Explicativa" na página http://www.academia.org.br/nossa-lingua/vocabulario-ortografico.

O que era difícil se tornou complicado, pois livros e dicionários publicados de setembro de 2009 a fevereiro de 2010 se tornaram obsoletos com apenas algumas semanas de existência. Por exemplo, quem adquiriu o dicionário Aurélio, publicado no finalzinho de 2009, encontrará com hífenes as locuções em geral, mas eles foram retirados - pé de moleque, dia a dia, à toa, mula sem cabeça, etc. As exceções são as espécies botânicas e zoológicas (cana-de-açúcar, cachorro-do-mato...) e estas: água-de-colônia, arco-da-velha, mais-que-perfeito, pé-de-meia, à queima-roupa e cor-de-rosa. 

Para os jovens estudantes que ainda não tiveram contato com as regras sobre hífen, porém, ficou mais fácil aprendê-las: antes, era necessário memorizar 39 prefixos e radicais para usar adequadamente o hífen; com a Reforma Ortográfica, grosso modo, basta saber o seguinte:

1- Se houver a junção de duas palavras autônomas - aquelas que podem ser usadas sozinhas -, para formar uma composta, usa-se o hífen: ama-seca, obra-prima, ano-luz, diretor-geral, carro-chefe. 

2- Se houver a junção de duas palavras autônomas para formar uma composta, sendo a segunda iniciada por vogal, e entre elas houver a preposição "de", esta se reduzirá com o uso de apóstrofo - d' - e o hífen será usado: caixa-d'água, galinha-d'angola, estrela-d'alva. 

3- Se houver a junção de duas palavras, sendo a primeira não autônoma, ou seja, que não se use isoladamente, como auto, mini, mega, penta, etc., obedece-se às seguintes regras:

A- Se a palavra não autônoma for terminada em vogal, haverá hífen se a segunda palavra for iniciada pela mesma vogal - micro-ondas, arqui-inimigo - ou por "h" - mini-horta. 
Portanto sem hífen em autoescola, semiextensivo, intrauterino...

Se a palavra não autônoma for "co, re ou pre - sem acento", não se usará o hífen: coordenador, reeducação, preencher

Quando a palavra seguinte se iniciar por "s" ou por "r", essas consoantes se repetem: autorretrato, antissemita, ultrassonografia. 

B- Se a palavra não autônoma for terminada em consoante, haverá hífen se a segunda palavra for iniciada pela mesma  consoante - circum-murado - por "h" - super-herói - ou por "r" - sub-rede. 

Se a palavra não autônoma for "trans, an, des ou in" não se usará o hífen: transexual, anistórico, desumano, inábil. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Diferençar x Diferenciar

Diferençar x Diferenciar 

Ambos os verbos existem e têm o mesmo significado. Veja o que dizem os dicionários:


Ontem conversámos com ele.

Forma verbal terminada em "-mos", cujo sujeito é "nós", conjugada no pretérito perfeito do indicativo, o popular 'passado', passou, em virtude da Reforma Ortográfica, a ter acento agudo facultativo para diferençar da forma homônima do presente do indicativo, tempo que indica uma ação corriqueira. 

A forma "demos" no presente do subjuntivo, tempo que caracteriza uma hipótese presente, passou a ter acento circunflexo facultativo, para diferençar da forma homônima do pretérito perfeito do indicativo. 

- Os presentes, demo-los aos meninos. 
Essa forma está no pretérito perfeito do indicativo. 

- Espero que nos demos bem. / Espero que nos dêmos bem. 
Essa forma está no presente do subjuntivo, por isso pode ter acento ou não. 

- Encontramo-nos toda semana. 
Essa forma está no presente do indicativo. 

- Ontem nos encontramos. / Ontem nos encontrámos. 
Essa forma está no pretérito perfeito do indicativo, por isso pode ter acento ou não. 

- Sempre que os amigos nos visitam, deixamo-los à vontade. 
Essa forma está no presente do indicativo. 

- Ontem, deixamo-los à vontade. / Ontem deixámo-los à vontade. 
Essa forma está no pretérito perfeito do indicativo, por isso pode ter acento ou não. 

- Nas noites em que saímos com nossas filhas, levamo-las para jantar. 
Essa forma está no presente do indicativo. 

- Ontem levamos nossas filhas para jantar. / Ontem levámos nossas filhas para jantar. 
Essa forma está no pretérito perfeito do indicativo, por isso pode ter acento ou não. 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Forma verbal terminada em -mos.

Forma verbal terminada em "-mos", cujo sujeito é "nós", seguida de pronome oblíquo átono - me, te, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes - só perde o "s" diante de "o, a, os, as", que se transformam em "lo, la, los, las", e de "nos". 

- Os presentes, demo-los aos meninos. 

A forma "demo-los" é  correspondente a "demos eles - os presentes". Como os pronomes "ele, ela, eles, elas" não funcionam como complemento de verbo, em seu lugar se usam "o, a, os, as". 

- Encontramo-nos toda semana. 
- Sempre que os amigos nos visitam, deixamo-los à vontade. 
- Nas noites em que saímos com nossas filhas, levamo-las para jantar. 
- Demos-lhes os presentes. 
- Trouxemos-te o que pediste. 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Neste ano, viajarei mais!

Os pronomes "este(a), isto", concernentemente a tempo, indicam o presente; "esse(a), isso", o futuro ou um passado recente; aquele(a), aquilo, um passado distante. Todos acompanhados ou não de preposição (neste, desta, naquilo, dessa, etc). Por exemplo:

- Neste ano (2015), viajarei mais. 
- Nesse ano (2014), decretei minha aposentadoria em sala de aula. 
- Nesse ano (2016/17/18...33, etc), certamente estarei mais magro. 
- Naquele ano (2013/12/11...03, etc), lecionava no Ensino Médio. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Feliz Ano-Novo!

O vocábulo "ano-novo", com hífen e iniciais minúsculas, se refere ao ano entrante, o que está por vir. E "Ano-Novo", também com hífen, mas com as iniciais maiúsculas, à festividade que ocorre no último dia do ano, ao rèveillon ou ao primeiro dia do ano. 

sábado, 27 de dezembro de 2014

Por que é inadequado falar "fazem dois anos"?

Esse é um dos dilemas da Língua Portuguesa que mais intriga os jovens estudantes brasileiros. O mesmo ocorre com o verbo haver: é inadequado dizer "houveram problemas". Mas por que então é adequado dizer "aconteceram problemas"? Vamos à explicação:

Existem alguns verbos na Língua Portuguesa  classificados como impessoais. Isso quer dizer que eles não têm sujeito, portanto não têm com quem concordar em número e pessoa. Por esse motivo devem ficar na terceira pessoa do singular obrigatoriamente. 

Dentre os verbos impessoais, os mais 'famosos' são "fazer" e "haver". Este será impessoal quando significar "existir" ou "acontecer" - que não são impessoais - ou ainda quando indicar tempo decorrido; aquele, quando indicar tempo decorrido ou fenômeno da natureza. Estejam sozinhos ou acompanhados de um verbo auxiliar. Veja alguns exemplos:

- Sempre houve (existiram) políticos desonestos. 
- Haverá (acontecerão) outros eventos como este. 
- Deve haver (devem existir) soluções para esse caso. 
- Faz dois anos que não leciono. 
- Fez 35º nessa tarde. 
- Deve fazer duas horas que estamos esperando. 

sábado, 15 de novembro de 2014

Que saiinha feiinha!

As palavras terminadas em três fonemas vocálicos em que o intermediário seja "i" (aia, eia, oia, etc), nos diminutivos e nos aumentativos não ocorre a perda deste: saiinha, saiona, praiinha, praiona, feiinho, feião. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O imitar é congênito no homem, e os homens se comprazem no imitado. (Aristóteles. Poética)


Essa frase constava da prova de Conhecimentos Gerais do vestibular 2015 da UEL. A questão não versava sobre gramática, mas, quem não a domina, certamente sentiu dificuldades em entender seu significado em virtude do vocabulário: qual o significado de "congênito" e de "comprazem"? E, como não conhece o significado do verbo, certamente não sabe como o conjugar. Vamos, então, à explicação:

O adjetivo "congênito" tem como significado, dentre outros, "nascido com o indivíduo". Aristóteles, portanto, afirmou que o ato de imitar nasce com o homem. O ser humano imita seus semelhantes desde o nascimento. Aprende pelas ações dos outros.

O verbo "comprazer" significa "fazer o gosto, a vontade; ser agradável; ser do agrado de; agradar, satisfazer". "Comprazem" é a conjugação da terceira pessoa do plural (eles - os homens) do presente do indicativo (sempre). Na frase, porém, o verbo utilizado foi "comprazer-se", verbo pronominal - aquele que se acompanha do pronome (me, te, se, nos, vos, se) em todas os tempos e modos, cujo significado é "deleitar-se, deliciar-se, regozijar-se". Aristóteles, então, afirmou que os homens se deliciam no imitado, ou seja, gostam da imitação.

O verbo "comprazer", ou "comprazer-se", se conjuga na maioria dos tempos com as mesmas desinências (terminações) de qualquer verbo terminado em "-er". Observe:

- eu vendo, tu vendes, ele vende, nós vendemos, vós vendeis, eles vendem, então:
- eu comprazo, tu comprazes, ele compraz (o "e" desaparece), nós comprazemos, vós comprazeis, eles comprazem (comprazer)
- eu me comprazo, tu te comprazes, ele se compraz, nós nos comprazemos, vós vos comprazeis, eles se comprazem (comprazer-se)

- eu vendia, tu vendias, ele vendia, nós vendíamos, vós vendíeis, eles vendiam, então:
- eu comprazia, tu comprazias, ele comprazia, nós comprazíamos, vós comprazíeis, eles compraziam

- eu vendi, tu vendeste, ele vendeu, nós vendemos, vós vendestes, eles venderam, então:
- eu comprazi, tu comprazeste, ele comprazeu, nós comprazemos, vós comprazestes, eles comprazeram.

Esse tempo - o pretérito perfeito do indicativo - admite outra conjugação:

- eu comprouve, tu comprouveste, ele comprouve, nós comprouvemos, vós comprouvestes, eles comprouveram.

Há outros dois tempos que admitem dupla conjugação:

1) O pretérito imperfeito do subjuntivo - aquele geralmente encabeçado pela conjunção "se" e com a desinência "-sse"
- se eu comprazesse ou comprouvesse, se nós comprazêssemos ou comprouvéssemos, etc.

2) O futuro do subjuntivo - aquele encabeçado geralmente pela conjunção "quando", indicando ação futura hipotética:
- Quando ele comprazer ou comprouver, quando eles comprazerem ou comprouverem, etc.

Veja alguns exemplos:

- Eu sempre me comprazi estudando Português.
- Eu sempre me comprouve estudando Português.
- Os namorados se comprazem quando estão juntos.
- Nós nos comprazeremos certamente durante as férias.
- Não me compraz estudar Química.


Há também o verbo "aprazer", cujo significado é "causar prazer; ser aprazível; agradar, deleitar" e o correspondente pronominal "aprazer-se", que significa "sentir prazer, contentar-se, deleitar-se". Sua conjugação é idêntica à de comprazer, porém, não há a duplicidade naqueles três tempos. Há somente aquela em que haja "prouve": eu me aprouve, se eu aprouver, quando nós aprouvermos, etc.

Veja alguns exemplos:

- Eu sempre me aprouve estudando Português.
- Os namorados se aprazem quando estão juntos.
- Nós nos aprazeremos certamente durante as férias.
- Não me apraz estudar Química.

Finalmente, há ainda o verbo "prazer", sinônimo de "aprazer" e de "comprazer". Este só se conjuga nas terceiras pessoas do singular e do plural: praz, prazem; prouve, prouveram, etc. O sujeito deste verbo é representado por algo, não por alguém. Por exemplo:


- Não me praz estudar Química.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Cãibra ou câimbra?

Ambas as escritas são adequadas ao Português padrão. A justificativa da acentuação é a seguinte: 

- Em "cãibra", há duas sílabas (cãi-bra). É, portanto, uma palavra paroxítona, pois a penúltima sílaba é a mais forte. As paroxítonas terminadas em "a" não recebem acento, como ocorre com "cama, banana, cachaça, mulata". Como na primeira sílaba há a nasalização, deve-se usar o til, senão a pronúncia seria idêntica à de "caibro, saibro, raiva, caixa".

- Em "câimbra", há três sílabas (câ-im-bra). É, portanto, uma palavra proparoxítona, pois a antepenúltima sílaba é a mais forte. Todas as proparoxítonas são acentuadas, por isso a obrigatoriedade do acento circunflexo, já que o "a" tem som fechado, como em "câmara, Tâmisa, flâmula, pântano".

domingo, 19 de outubro de 2014

O bê-á-bá do blá-blá-blá

Com a Reforma Ortográfica, passaram a ter hífen todos os vocábulos compostos por elementos repetidos com ou sem alternância vocálica ou consonântica:

- lenga-lenga, zum-zum-zum, ti-ti-ti, tim-tim, lero-lero, zigue-zague, vai-volta, tique-taque.

A única exceção, segundo o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o documento oficial de nosso idioma, é o vocábulo vaivém.

Quanto à acentuação, os elementos terminados em a, e, o são acentuados; os demais, não:


- blá-blá-blá, zás-trás, bê-á-bá, ti-ti-ti, fru-fru

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Gratuito, intuito, fortuito, circuito, fluido

Muitas são as pessoas que se equivocam ao pronunciar essas palavras, por acentuarem a pronúncia da letra "i", que deve ficar na mesma sílaba do "u". Esta é mais forte que aquela. A pronúncia delas é equivalente a "FUI": GRA-TUI-TO, IN-TUI-TO, FOR-TUI-TO, CIR-CUI-TO, FLUI-DO.

Uma observação tem de ser feita: há também a possibilidade de se pronunciar FLU-Í-DO, escrevendo-se a palavra com acento: quando for o particípio do verbo "fluir", e não o substantivo. Por exemplo:

- O fluido para freios. O vocábulo "fluido" é substantivo. Pronuncia-se, portanto, FLUI-DO.
- A explicação do professor tem fluído muito bem. O vocábulo "fluído" é particípio de "fluir". Pronuncia-se, portanto, FLU-Í-DO.