segunda-feira, 28 de julho de 2014

Durma oito horas e se alimente bem.


Numa noite dessas, na novela das nove, uma personagem aconselhava sua filha, dizendo o seguinte:

- “Chega cedo, dorme oito horas, se alimenta bem, minha filha”.

Ela, ao dizer essas palavras, estava usando os verbos no chamado modo imperativo, utilizado para ordens, pedidos, apelos ou conselhos. O problema é que os verbos estão usados inadequadamente. Vejamos por quê:

O imperativo afirmativo é formado a partir de verbos no presente do indicativo e no presente do subjuntivo.
Do presente do indicativo (tempo identificado com a frase “todos os dias...”) provêm tu e vós, retirando-lhes a letra s; do presente do subjuntivo (tempo identificado com a frase “espero que...”) provêm você, nós e vocês.

O verbo chegar tem a seguinte conjugação no presente do indicativo:

- Todos os dias eu chego, tu chegas, ele chega, nós chegamos, vós chegais, eles chegam.

No presente do subjuntivo:

- Espero que eu chegue, tu chegues, ele chegue, nós cheguemos, vós chegueis, eles cheguem.

No imperativo afirmativo, tu e vós provêm do presente do indicativo, perdendo a letra s:

- Chega tu, chegai vós.

Você, nós e vocês, do presente do subjuntivo:

- Chegue você, cheguemos nós, cheguem vocês. 

O verbo “dormir” tem a seguinte conjugação:

- Presente do indicativo: durmo, dormes, dorme, dormimos, dormis (o “i” é a vogal mais forte), dormem.
- Presente do subjuntivo: durma, durmas, durma, durmamos, durmais, durmam.

- Imperativo afirmativo: dorme tu, durma você, durmamos nós, dormi (o “i” é a vogal mais forte) vós, durmam vocês.

O verbo alimentar-se tem a seguinte conjugação:

- Presente do indicativo: eu me alimento, tu te alimentas, ele se alimenta, nós nos alimentamos, vós vos alimentais, eles se alimentam.
- Presente do subjuntivo: que eu me alimente, tu te alimentes, ele se alimente, nós nos alimentemos, vós vos alimenteis, eles se alimentem.
- Imperativo afirmativo: alimenta-te tu, alimente-se você, alimentemo-nos nós, alimentai-vos vós, alimentem-se vocês.

Obs: Os verbos terminados em -mos seguidos de nos perdem a letra s, por isso o certo é alimentemo-nos.

Posto isso, concluímos que a frase dita pela personagem pode ser construída de duas maneiras diferentes:

1ª: Referindo-se à segunda pessoa do singular (tu):

- Chega cedo, dorme oito horas, alimenta-te bem, minha filha.

2ª: Referindo-se à terceira pessoa do singular (você):

- Chegue cedo, durma oito horas, alimente-se bem, minha filha.

Como a referida personagem trata sua filha de “você”, a frase elaborada por ela deveria ser a segunda:

- Chegue, cedo, durma oito horas, alimente-se bem, minha filha.

Em tempo, se o imperativo for negativo, será conjugado como o presente do subjuntivo:

- Não chegues tu, não chegue você, não cheguemos nós, não chegueis vós, não cheguem vocês.
- Não durmas, não durma, não durmamos, não durmais, não durmam.
- Não te alimentes, não se alimente, não nos alimentemos, não vos alimenteis, não se alimentem.

Se a frase fosse construída no imperativo negativo, teríamos o seguinte:

1ª: Tu = Não chegues cedo, não durmas oito horas, não te alimentes bem, minha filha.
2ª: Você = Não chegue cedo, não durma oito horas, não se alimente bem, minha filha.

O segredo é pensar bem antes de construir uma frase em que haja ordem, pedido ou conselho. Falar bem é uma virtude que todos deveriam procurar ter. Veja mais exemplos de imperativo:

- Mande-me seu endereço o mais rápido possível. (Certa; poderia também ser Manda-me (tu) teu endereço....)
- Sente-se, que irei chamar seu pai. (Certa; poderia também ser Senta-te (tu), que irei chamar teu pai)
- Não me deixa, por favor!  Eu te amo muito. (Errada; o certo é Não me deixe (você), por favor! Eu a amo muito ou Não me deixes (tu), por favor! Eu te amo muito)
- Presta atenção à aula, menino, senão não aprenderá nada. (Errada; o certo é Presta atenção (tu) à aula, menino, senão não aprenderás nada ou Preste atenção (você) à aula, menino, senão não aprenderá nada)
- Já lhe disse várias vezes: Cala a boca! (Errada; o certo é Já lhe disse várias vezes: Cale a boca! ou Já te disse várias vezes: Cala a boca (tu)!)
- Vem pra cá, Charlene. Você não se arrependerá. (Errada; o certo é Venha para cá, Charlene. Você não se arrependerá ou Vem para cá, Charlene. Tu não te arrependerás)
- Não me faça ficar te esperando muito tempo! (Errada; o certo é Não me faças (tu) ficar esperando-te muito tempo ou Não me faça (você) ficar esperando-a muito tempo)
- Controle-se. Cuide de seu colesterol. (Certa; poderia também ser Controla-te (tu). Cuida de teu colesterol)


sábado, 26 de julho de 2014

Após o desfile acontecerá o Baile Popular, durante o qual haverá a premiação dos blocos.



APÓS O DESFILE ACONTECERÁ O BAILE POPULAR, DURANTE O QUAL HAVERÁ A PREMIAÇÃO DOS BLOCOS.

            Na frase apresentada, já há as devidas correções para que o leitor não tenha, à primeira vista, a impressão errônea de que o inadequado possa ser o conveniente. O que li num site destinado a quem deseja conhecer novos lugares e se aventurar nas diversões oferecidas foi o seguinte:

- “Após o desfile acontece o Baile Popular, onde acontece a premiação dos blocos”.

As adequações foram efetivadas pelos seguintes motivos:

            O primeiro deslize do período está na repetição do verbo acontecer muito proximamente um do outro. Acontecer tem os seguintes significados, segundo o dicionário Aurélio:

1. “Suceder ou realizar-se inopinadamente (“inopinado” é o que não é esperado, imprevisto);
2. Passar a ser realidade; ocorrer, sobrevir”.

Em vez de repetir o verbo, o autor poderia ter escolhido um de seus significados:

- “... acontece o Baile Popular, em que se realiza a premiação...”;
- “... ocorre o Baile Popular, em que acontece a premiação...”.

            Esses verbos – acontecer, suceder, ocorrer – podem também ser substituídos pelo verbo haver, que, nesses casos, passa a ser impessoal, ou seja, é um verbo que não tem sujeito. Como não tem sujeito, não tem com quem concordar, por isso fica na terceira pessoa do singular obrigatoriamente, mesmo quando se referir a um termo plural:

- “... haverá o Baile Popular, em que se realizará a premiação...”;
- “... ocorrerá o Baile Popular, em que haverá a premiação...”;
- “... haverá o Baile Popular, em que acontecerá a premiação...”;
- “... acontecerá o Baile Popular, em que haverá a premiação...”.

            O segundo problema se encontra no uso indevido dos verbos no tempo denominado de presente do indicativo, tempo que indica uma ação corriqueira, do dia a dia. Por exemplo:

- Todos os dias há um problema diferente para resolver.
- Todos os anos, após o desfile acontece o Baile Popular, em que há a premiação dos blocos.

O site, no entanto, registrava que o baile e a premiação ocorreriam neste ano, sem menção a tradição alguma.
           
O terceiro problema está no uso inadequado do pronome relativo onde, que só pode ser utilizado nas indicações de lugar, como nos seguintes exemplos:

- A festa ocorrerá no salão principal, onde haverá as premiações dos vencedores.
- O hotel, onde personalidades se hospedam com frequência, fica à beira-mar.

Em nenhuma outra circunstância onde poderá ser usado. Em seu lugar, o adequado é a utilização do pronome relativo que, que estabelece uma relação sintática entre o verbo posterior a ele (haver) e o substantivo anterior (Baile Popular):

- Haverá a premiação dos blocos no Baile Popular.

Como nessa relação sintática houve a presença da preposição em, ela tem de ser colocada antes do pronome relativo: em que.
           
O pronome relativo que pode ser substituído, em qualquer circunstância, por o qual, a qual, os quais, as quais, conforme o substantivo anterior a ele, que, na frase, é baile, masculino, singular. A frase, então, também poderia ser assim escrita:

- “... acontecerá o Baile Popular, no qual haverá a premiação...”.

            E, finalmente, a preposição em poderia, ainda, ser substituída por durante, afinal a premiação ocorrerá durante o baile.
Quando, antes do pronome relativo, houver uma preposição com duas ou mais sílabas, com exceção de para, não se deve usar que, e sim qual:

- “... acontecerá o Baile Popular, durante o qual haverá a premiação”.




Foi assistido é inadequado.

  Um participante de um desses programas televisivos de esportes falou a seguinte frase: “Deve-se respeitar um evento que foi assistido pelo mundo todo!” Muitos já utilizaram frases semelhantes a essa sem perceber que é inadequada ao padrão culto da língua. Vejamos por quê:

            Há verbos que exigem complemento com preposição, e outros, sem ela. Estes são chamados de transitivos diretos; aqueles, de transitivos indiretos. Somente os transitivos diretos admitem voz passiva, na qual osujeito sofre a ação praticada pelo agente da passiva – antecedido depor, pelo, pela, pelos ou pelas ou de, do, da, dos ou das – e há a formação de uma locução com o verbo que indica a ação sendo auxiliado pelo verbo ser ou por estar. Os transitivos indiretos não devem ser usados na voz passiva, com algumas exceções, como obedecer, pagar e perdoar.

            Neste texto, já usei dois verbos transitivos diretos na voz passiva:

1) “...o verbo que indica a ação sendo auxiliado pelo verbo ser ou por estar”. A oração está na voz passiva, pois o sujeito (o verbo que indica a ação) sofre a ação praticada pelo agente (o verbo ser ou estar). Na voz ativa, a frase poderia ser assim estruturada: “O verbo ser ou estar auxilia o verbo que indica a ação”.
2) “Os transitivos indiretos não devem ser usados na voz passiva (pelas pessoas)...”. A oração está na voz passiva, pois o sujeito (os transitivos indiretos) sofre a ação praticada pelo agente (que não aparece na oração, mas poderia ser “as pessoas”). Na voz ativa, a frase poderia ser assim estruturada: “(As pessoas) Não devem usar os transitivos indiretos na voz passiva”.

            Os transitivos diretos são ou únicos a admitirem a voz passiva porque seu complemento – que será transformado em sujeito – não é encabeçado por uma preposição, e um sujeito jamais será iniciado por uma delas.

            O verbo em questão – assistir no sentido de ver ou presenciar – é transitivo indireto, pois “quem assiste, assiste A algo”. Quem, portanto, quiser comunicar-se por meio da gramática padrão, não deverá usar tal verbo na voz passiva, ou seja, ele não deve ser acompanhado do verboser jamais. Outros dois verbos muito usados na voz passiva inadequadamente são aspirar visar, ambos significando ter um objetivo, uma meta. Esses, conforme o português padrão, tampouco podem ser acompanhados do verbo ser.

            Observe as seguintes frases:

- A abertura da Copa do Mundo foi assistida por centenas de milhões de pessoas.
Frase inadequada, pois assistir, significando ver, presenciar, não pode ser acompanhado do verbo ser. O adequado é o seguinte:

Centenas de milhões de pessoas assistiram à abertura da Copa do Mundo.

Uma vaga em Medicina é aspirada por dezenas de alunos.
Inadequada, pois aspirar, significando ter um objetivo, uma meta, não pode ser acompanhado do verbo ser. O adequado é o seguinte:

- Dezenas de alunos aspiram a uma vaga em Medicina.

- Os fins que são visados por ele são nobres.
Inadequada, pois visar, significando ter um objetivo, uma meta, não pode ser acompanhado do verbo ser. O adequado é o seguinte:

- Os fins a que ele visa são nobres.

- As leis devem ser obedecidas por todos.
- Os pecadores que se arrependem são perdoados por Deus.
- Os trabalhadores são pagos no quinto dia útil do mês.
Frases adequadas, pois obedecer, pagar e perdoar, apesar de serem transitivos indiretos, admitem a voz passiva.

            A frase dita pelo participante do programa televisivo deveria, portanto ser assim estruturada:

Deve-se respeitar um evento a que o mundo todo assistiu!

Felipão pode pedir que Neymar force o segundo cartão amarelo.

            Numa publicação jornalística, havia a seguinte frase: “Felipão pode pedir para Neymar forçar segundo cartão contra o México”. Observe, porém, que essa frase foi reescrita de maneira diferente no título de nossa coluna. Por quê? Vejamos a explicação:

O comportamento sintático do verbo pedir é um pouco diferente do da maioria dos verbos, que admite a redução da oração que funciona como seu complemento ou sujeito. Por exemplo, a banda Legião Urbana, que tanto sucesso fez nas décadas de 80 e 90, cantava “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, que é a redução de “É preciso que se amem as pessoas como se não houvesse amanhã”. Houve a retirada da conjunção integrante que e a colocação verbo amar no infinitivo. É o que denominamos de redução de uma oração.

O verbo pedir só admite essa redução, com a intercalação da preposição para entre pedir e o outro verbo no infinitivo, quando houver subentendida a palavra licença, autorização ou permissão. Em nenhum outro caso deve interpor-se tal preposição entre pedir e a outra oração, que funciona como complemento direto. Por exemplo: “Pedi que retomassem a discussão”, e não “Pedi para retomarem a discussão”; “O gerente pediu que seu assessor levasse os documentos até sua mesa”, e não “O gerente pediu para que seu assessor levasse os documentos até sua mesa”.

Observe, porém, estas frases: “Pedi para retomar a discussão”; “O assessor pediu para levar os documentos até a mesa do gerente”. Essas estão adequadas ao padrão culto, pois há subentendida a palavra licença, autorização ou permissão: “Pedi (licença) para retomar a discussão”; “O assessor pediu (permissão) para levar os documentos até a mesa do gerente”.

Uma frase ficou bastante famosa no Brasil, devido ao filme “Tropa de Elite”, em que o Capitão Nascimento falava a seus subordinados: “Pede pra sair!”. Adequada, pois ele poderia dizer “Pede autorização para sair!”.

Esse é um assunto um tanto polêmico, pois há gramáticos que já admitem a interposição da preposição entre o verbo pedir e seu complemento. Fazem isso, porém, para aproximar a língua ao falar da população em geral, o que fere as normas da língua padrão. Veja o que dois baluartes da Gramática da Língua Portuguesa dizem sobre isso:

Napoleão Mendes de Almeida, em seu Dicionário de Questões Vernáculas: “Conquanto haja exemplos que se afastam desse procedimento, quem constrói de acordo com a sintaxe exposta redige rigorosamente bem; construções com o verbo pedir, quando o objeto é oracional, devem ter o que ligado diretamente ao verbo; a interposição da preposição para não se justifica, e os que pretendem defender essa construção recorrem a estratagemas cruciantes para a inteligência”.

Francisco Fernandes em seu Dicionário de Regência Verbal: “A maioria dos gramáticos tacha de viciosa a construção pedir para fazer alguma coisa e somente admite pedir para quando for possível subentender uma das palavras licença, permissão, autorização, vênia, etc. Não obstante, é comum encontrar, em escritores de boa nota, exemplos da construção condenada, como Herculano, Garret, Camilo, Machado”.


O fato de encontrar exemplos em textos de grandes escritores não justifica a utilização da expressão como adequada, pois a eles existe a licença poética, que lhes permite desviar-se da norma culta em poesias, contos, romances, etc. Ao jovem vestibulando, àquele que se submeterá a um concurso e aos que se interessam pela comunicação adequada aconselha-se que se siga tão somente a norma padrão.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Não premeio quem não merece que o premeiem.

 Essa frase soa estranhissimamente aos ouvidos brasileiros, pois estamos acostumados com o uso regular dos verbos terminados em -iar, apesar de sabermos que existem casos especiais, como odiar, cuja conjugação na primeira pessoa do singular do presente do indicativo é Eu odeio. Todos sabemos disso. Mas Eu premeio ... que o premeiem? Que esquisitice é essa? Vamos à explicação:

            Os verbos terminados em –iar têm três modelos de conjugação, um regular e dois irregulares. Vejamo-los:

            1- Os verbos mediar, intermediar, ansiar, remediar, incendiar odiar são conjugados da seguinte maneira: as pessoas eu, tu, ele eles do presente do indicativo, tempo caracterizado pela expressão Todos os dias..., e do presente do subjuntivo, tempo caracterizado pela expressão Espero que..., recebem a letra e antes da terminação –iar

- Todos os dias eu intermedeio, tu intermedeias, ele intermedeia, eles intermedeiam.
- Espero que eu intermedeie, que tu intermedeies, que ele intermedeie, que eles intermedeiem.

As demais pessoas desses tempos e todas as outras dos demais tempos são regulares: 

- Nós intermediamos, vós intermediais.
- Que nós intermediemos.
- Eu intermediei.
- Se ele intermediasse.
- Quando eles intermediarem, etc.
     
       2- Os verbos derivados de substantivos paroxítonos – aqueles cuja sílaba tônica é a penúltima – terminados em –ia ou em –io tanto podem ter conjugação regular quanto idêntica às dos verbos do grupo 1: 

- Todos os dias eu premio, tu premias, ele premia, eles premiam.
- Todos os dias eu premeio, tu premeias, ele premeia, eles premeiam;
- Espero que eu premie, que tu premies, que ele premie, que eles premiem.
- Espero que eu premeie, que tu premeies, que ele premeie, que eles premeiem.

As demais formas são somente regulares: 

- Todos os dias nós premiamos, vós premiais.
- Espero que nós premiemos, que vós premieis.
- Eu premiei, ele premiou.
- Se nós premiássemos, etc.
    
        O problema dessa nova regra, criada pela Reforma Ortográfica, é que o texto do Acordo registra o seguinte:

Existem verbos em -iar, ligados a substantivos com as terminações átonas -ia ou -io, que admitem variantes na conjugação: negoceio ou negocio; premeio ou premio”.

Negociar provém do substantivo negóciopremiar, de prêmio.

            O Acordo diz, então, que “existem verbos” e cita como exemplo negociar premiar, não registrando nenhum outro exemplo. Isso significa que não são todos os verbos derivados de tais substantivos que entram nessa regra e também que os dois apresentados como exemplos não são os únicos. Com isso ficamos sem saber quais são eles. Será que poderemos dizer eu angusteio ou eu copeio? Esse mistério permanecerá até que os detentores do poder ortográfico se manifestem sobre tal assunto. Por enquanto ficaremos com os únicos apresentados pelo Acordo: negociar e premiar. A frase apresentada no título está, então, adequada ao padrão culto da língua.

            3- Todos os demais verbos terminados em –iar têm conjugação regular, idêntica à de qualquer verbo terminado em –areu assobio, eles se saciam, que ele acaricie, ele adia, etc.

            Houve outra mudança na ortografia da Língua Portuguesa em virtude do Acordo: as letras e e o, quando estiverem na sílaba tônica, e a sílaba seguinte se iniciar por ou por n, tanto podem ser acentuadas com acento agudo quanto com acento circunflexo. Então tanto se pode escrever o substantivo que dá origem ao verbo premiar com acento agudo ou com acento circunflexo: o prêmio ou o prémio. Outros exemplos: fenômeno/fenómeno, gêmeos/gémeos, Antônio/António.



quarta-feira, 16 de julho de 2014

Quiuí e poncã

O fruto de casca marrom fina e pilosa e polpa verde e sumarenta  denominado de kiwi em língua inglesa deve ter seu nome escrito em português quiuí ou quivi
A tangerina que se caracteriza pelas dimensões avantajadas e casca muito frouxa chama-se poncã

terça-feira, 15 de julho de 2014

Sem qualquer padrão tático - Errado!

Não se usa o pronome qualquer de forma negativa. Em seu lugar usa-se nenhum ou algum posposto ao substantivo:
-A Seleção não tinha qualquer padrão tático. - Errado
-A Seleção não tinha nenhum padrão tático. - Certo
-A Seleção não tinha padrão tático algum. - Certo

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Dilsonário: probo, ímprobo, réprobo.

Probo: De caráter íntegro; honesto, honrado, reto, justo
Ímprobo: 1.Que não tem probidade; desonesto. 2. Árduo, fatigante, exaustivo
ProbidadeQualidade de probo; integridade de caráter; honradez. 
Réprobo: 1.Condenado, danado. 2.Mau, perverso, malvado.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Aerar o vinho é um erro!

Na Língua Portuguesa não há o verbo aerar, mas há o substantivo aeração, que provém do francês aération. O verbo adequado é arejar, portanto deve-se arejar o vinho

Madrugadas frigidíssimas.

Frigidíssimo é o superlativo de frígido, que significa muito frio, gelado
Em sentido figurado, significa insensível, e na psiquiatria, que não experimenta desejo ou prazer sexual.
Tem o mesmo sentido de friíssimo, que significa muito frio

terça-feira, 1 de julho de 2014

EM PRINCÍPIO, É PRECISO QUE SE AVERIGUE O QUE OCORREU!


            “Em princípio” ou “A princípio”? Essas duas expressões têm sentidos diferentes: esta significa no início, no começo; aquela, em tese, em teoria ou antes de qualquer consideração. Por exemplo, observe as seguintes frases:

- “A princípio, ele me telefonava todas as semanas”, ou seja, no começo ele me telefonava todas as semanas, agora não mais.

- “Em princípio, é preciso que se averigue o que ocorreu”, ou seja, antes de qualquer consideração, é preciso averiguar o que ocorreu.

- “Em princípio, ele é o candidato ideal”, ou seja, em tese, em teoria ele é o candidato ideal.

            Alguém pode perguntar-me o porquê de as expressões terem significados diferentes já que o substantivo é único. A diferença se estabelece em virtude da mudança de preposição. A preposição a indica tempo; em, situação, por isso a diferença.

            Essas duas preposições são muito usadas no dia a dia, inclusive causando confusão. Por exemplo, o adequado é usar a preposição a na indicação de destino, e não a preposição em, utilização muito comum em nosso país, como na seguinte frase:

- Irei a São Paulo nestas férias, e não irei em São Paulo, vou em São Paulo, etc.

            Ocorre, porém, que há outra preposição para a indicação de destino: para. Esta, no entanto, indica mudança definitiva; aquela, ida e volta. Portanto ao dizer “Irei a São Paulo” o sentido é de ida e volta; “Irei para São Paulo”, significa que me mudarei para São Paulo.

            Alguém, novamente, pode perguntar-me: mas, e a frase “Vou para casa” está adequada ou não? Não, não está. Embora a utilizemos no nosso cotidiano, é uma expressão inadequada ao padrão culto da língua. O ‘certo’ é dizer “Vou a casa”, sem crase. Expressão que, certamente, ninguém passará a utilizar por ser estranha ao nosso hábito linguístico. Continue, então, a usar a preposição para, mas quem se submeter a algum concurso, tem de saber a maneira adequada ao português padrão.

            A ausência do sinal indicador de crase é explicada pela falta do artigo a. o substantivo casa não é determinado pelo artigo quando não estiver acompanhado de elemento modificador. Por exemplo, observe as seguintes frases:

- Estou em casa. Sem o artigo por o substantivo casa não estar especificado.
- Estou na casa de Maria. Com o artigo por o substantivo casa estar especificado.

            Só haverá o acento indicador de crase quando houver a preposição a e o substantivo casa estiver especificado. Por exemplo:

- Irei a casa. Sem o artigo, portanto sem crase, por o substantivo casa não estar especificado.
- Irei à casa de Maria. Com o artigo, por o substantivo casa estar especificado, e com a preposição a, pois o verbo ir indica destino, portanto com crase.
  
          Uma pergunta: como se pronuncia o verbo averiguar na frase apresentada?

            Os verbos terminados em –guar e em –quar e o verbo delinquir, com a Reforma Ortográfica, passaram a ter dois modelos de conjugação nas pessoas eu, tu, ele e eles do presente do indicativo e do subjuntivo:

- Com acento e com as vogais finais na mesma sílaba: que eu averígue (a-ve-rí-gue), que tu averígues (a-ve-rí-gues), que ele averígue (a-ve-rí-gue), que eles averíguem (a-ve-rí-guem).


- Sem acento e com as vogais finais em sílabas diferentes: que eu averigue (a-ve-ri-gu-e), que tu averigues (a-ve-ri-gu-es), que ele averigue (a-ve-ri-gu-e), que eles averiguem (a-ve-ri-gu-em).

terça-feira, 24 de junho de 2014

"Foi assistido" é inadequado.

EDUCAR-SE - COLUNA DA FOLHA DE LONDRINA


Um participante de um desses programas televisivos de esportes falou a seguinte frase: "Deve-se respeitar um evento que foi assistido pelo mundo todo!" Muitos já utilizaram frases semelhantes a essa sem perceber que é inadequada ao padrão culto da língua. Vejamos por quê: 

Há verbos que exigem complemento com preposição, e outros, sem ela. Estes são chamados de transitivos diretos; aqueles, de transitivos indiretos. Somente os transitivos diretos admitem voz passiva, na qual o sujeito sofre a ação praticada pelo agente da passiva – antecedido de "por, pelo, pela, pelos ou pelas" ou "de, do, da, dos ou das" – e há a formação de uma locução com o verbo que indica a ação sendo auxiliado pelo verbo ser ou por estar. Os transitivos indiretos não devem ser usados na voz passiva, com algumas exceções, como obedecer, pagar e perdoar. 

Neste texto, já usei dois verbos transitivos diretos na voz passiva: 


1) "...o verbo que indica a ação sendo auxiliado pelo verbo ser ou por estar". A oração está na voz passiva, pois o sujeito (o verbo que indica a ação) sofre a ação praticada pelo agente (o verbo ser ou estar). Na voz ativa, a frase poderia ser assim estruturada: "O verbo ser ou estar auxilia o verbo que indica a ação". 


2) "Os transitivos indiretos não devem ser usados na voz passiva (pelas pessoas)...". A oração está na voz passiva, pois o sujeito (os transitivos diretos) sofre a ação praticada pelo agente (que não aparece na oração, mas poderia ser "as pessoas"). Na voz ativa, a frase poderia ser assim estruturada: "(As pessoas) Não devem usar os transitivos diretos na voz passiva". 

Os transitivos diretos são ou únicos a admitirem a voz passiva porque seu complemento – que será transformado em sujeito – não é encabeçado por uma preposição, e um sujeito jamais será iniciado por uma delas. 

O verbo em questão – assistir no sentido de ver ou presenciar – é transitivo indireto, pois "quem assiste, assiste A algo". Quem, portanto, quiser comunicar-se por meio da gramática padrão, não deverá usar tal verbo na voz passiva, ou seja, ele não deve ser acompanhado do verbo ser jamais. 


Outros dois verbos muito usados na voz passiva inadequadamente são aspirar e visar, ambos significando ter um objetivo, uma meta. Esses, conforme o português padrão, tampouco podem ser acompanhados do verbo ser. 

Observe as seguintes frases: 


"A abertura da Copa do Mundo foi assistida por centenas de milhões de pessoas". Frase inadequada, pois assistir, significando ver, presenciar, não pode ser acompanhado do verbo ser. O adequado é "Centenas de milhões de pessoas assistiram à abertura da Copa do Mundo". 


"Uma vaga em Medicina é aspirada por dezenas de alunos". Inadequada, pois aspirar, significando ter um objetivo, uma meta, não pode ser acompanhado do verbo ser. O adequado é "Dezenas de alunos aspiram a uma vaga em Medicina". 


"Os fins que são visados por ele são nobres". Inadequada, pois visar, significando ter um objetivo, uma meta, não pode ser acompanhado do verbo ser. O adequado é "Os fins a que ele visa são nobres". 


"As leis devem ser obedecidas por todos"; 

"Os pecadores que se arrependem são perdoados por Deus"; 

"Os trabalhadores são pagos no quinto dia útil do mês". 


Frases adequadas, pois obedecer, pagar e perdoar, apesar de serem transitivos indiretos, admitem a voz passiva.

A frase dita pelo participante do programa televisivo deveria, portanto ser assim estruturada: "Deve-se respeitar um evento a que o mundo todo assistiu!" 

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dilson@catarino.pro.br 


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terça-feira, 17 de junho de 2014

O verbo "pedir" e a preposição "para".

EDUCAR-SE - Folha de Londrina


Numa publicação jornalística, havia a seguinte frase: "Felipão pode pedir para Neymar forçar segundo cartão contra o México". Observe, porém, que essa frase foi reescrita de maneira diferente no título de nossa coluna. Por quê? Vejamos a explicação: 

O comportamento sintático do verbo pedir é um pouco diferente do da maioria dos verbos, que admite a redução da oração que funciona como seu complemento ou sujeito. Por exemplo, a banda Legião Urbana, que tanto sucesso fez nas décadas de 80 e 90, cantava "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã", que é a redução de "É preciso que se amem as pessoas como se não houvesse amanhã". Houve a retirada da conjunção integrante que e a colocação verbo amar no infinitivo. É o que denominamos de redução de uma oração. 

O verbo pedir só admite essa redução, com a intercalação da preposição para entre pedir e o outro verbo no infinitivo, quando houver subentendida a palavra licença, autorização ou permissão. Em nenhum outro caso deve interpor-se tal preposição entre pedir e a outra oração, que funciona como complemento direto. Por exemplo: "Pedi que retomassem a discussão", e não "Pedi para retomarem a discussão"; "O gerente pediu que seu assessor levasse os documentos até sua mesa", e não "O gerente pediu para que seu assessor levasse os documentos até sua mesa". 

Observe, porém, estas frases: "Pedi para retomar a discussão"; "O assessor pediu para levar os documentos até a mesa do gerente". Essas estão adequadas ao padrão culto, pois há subentendida a palavra licença, autorização ou permissão: "Pedi (licença) para retomar a discussão"; "O assessor pediu (permissão) para levar os documentos até a mesa do gerente". 

Uma frase ficou bastante famosa no Brasil, devido ao filme "Tropa de Elite", em que o Capitão Nascimento falava a seus subordinados: "Pede pra sair!". Adequada, pois ele poderia dizer "Pede autorização para sair!". 

Esse é um assunto um tanto polêmico, pois há gramáticos que já admitem a interposição da preposição entre o verbo pedir e seu complemento. Fazem isso, porém, para aproximar a língua ao falar da população em geral, o que fere as normas da língua padrão. Veja o que dois baluartes da Gramática da Língua Portuguesa dizem sobre isso: 

Napoleão Mendes de Almeida, em seu Dicionário de Questões Vernáculas: "Conquanto haja exemplos que se afastam desse procedimento, quem constrói de acordo com a sintaxe exposta redige rigorosamente bem; construções com o verbo pedir, quando o objeto é oracional, devem ter o que ligado diretamente ao verbo; a interposição da preposição para não se justifica, e os que pretendem defender essa construção recorrem a estratagemas cruciantes para a inteligência". 

Francisco Fernandes em seu Dicionário de Regência Verbal: "A maioria dos gramáticos tacha de viciosa a construção pedir para fazer alguma coisa e somente admite pedir para quando for possível subentender uma das palavras licença, permissão, autorização, vênia, etc. Não obstante, é comum encontrar, em escritores de boa nota, exemplos da construção condenada, como Herculano, Garret, Camilo, Machado".

O fato de encontrar exemplos em textos de grandes escritores não justifica a utilização da expressão como adequada, pois a eles existe a licença poética, que lhes permite desviar-se da norma culta em poesias, contos, romances, etc. Ao jovem vestibulando, àquele que se submeterá a um concurso e aos que se interessam pela comunicação adequada aconselha-se que se siga tão somente a norma padrão.