quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

texto elegante tem de ser texto bonito?

Texto elegante não é necessariamente um texto bonito. Há uma falsa impressão de que determinadas estruturas sintáticas ou lexicais são feias, por isso descartadas pela maioria daqueles que se arriscam a escrever um texto. É o que ocorre, por exemplo, com o uso da mesóclise. Dir-se-ia (isso é mesóclise – o pronome se no meio do verbo) que ela caiu em desuso. Grande parte dos que praticam a escrita fogem dela como “o diabo da cruz”, porque a julgam feia. Feia, porém, ela não é; considero o seu uso até elegante. Ela e muitas outras palavras e expressões foram condenadas ao degredo porque “doem aos ouvidos” de quem supõe equivocadamente que texto bom é texto simples, mas que cumpre o papel de comunicar as ideias do autor.

Na década de 1980, ganhou corpo no Brasil a teoria de que não era necessário o estudo da Língua Portuguesa. Com isso, as regras gramaticais passaram a ser ignoradas, e os exames vestibulares deixaram de incluir em suas provas questões sobre Gramática. As aulas de Português se transformaram em aulas de leitura de texto, de conhecimento de vocabulário e de execução de testes que supostamente continham conteúdo gramatical.

LATIM É ANÁLISE SINTÁTICA

Um famoso autor de livros infantis brasileiro, num almoço em Londrina, disse-me, inclusive, julgar desnecessário ensinar Gramática aos jovens; que é um absurdo ensinar análise sintática, com seus sujeitos e objetos; que o ideal seria ensinar Latim. O problema é que ele se esqueceu de que o estudo do Latim é análise sintática pura. Escrevem-se as palavras em Latim de acordo com sua função sintática. Por exemplo, a palavra senhor se escreverá dominus, domini, dominórum, domino, dominis, dominum, dominos ou domine, todas tendo o mesmo significado — senhor — dependendo da função sintática que exercer na frase e de estar no singular ou no plural. Se o substantivo senhor exercer a função de sujeito de um verbo em Português, em Latim se escreverá dominus para o senhor e domini para os senhores; se for complemento de verbo que não exige preposição: dominum para o senhor e dominos para os senhores; se for complemento de verbo que exige a preposição a: domino para ao senhor e dominis para aos senhores. Ou seja, para saber Latim, há de se estudar sintaxe profundamente.

Os jovens foram submetidos a testes científicos que denomino de “achologia aplicada”: alguns estudiosos julgaram, por conta própria, desnecessária a Gramática, empreenderam uma campanha intensa contra ela e conseguiram convencer a maioria de que ela deveria ser praticamente eliminada das escolas. Por isso, os cursos em que o estudo gramatical deveria ser constante, como em Direito e Jornalismo, não passam do básico, do Português Instrumental; nem no curso de Letras se trabalha a Gramática Normativa! E o resultado são jovens e adultos que não sabem escrever, que não conseguem entender um texto um pouco mais complexo e que não sabem se comunicar adequadamente.

PROCESSO DE DESARRANJO DA LÍNGUA

Não pretendo aqui desqualificar profissional algum, pois acredito que sejam vítimas desse processo de desarranjo da Língua Portuguesa no Brasil. O que se deve fazer, agora, é tentar reconstruir nosso idioma para que ele seja mais respeitado. É aproveitar essa onda formada pelo Acordo Ortográfico em que todos passaram a se interessar mais por estudar Gramática (ao menos a Ortografia), estimular-se e estimular os demais a pesquisar mais antes de se comunicar, principalmente por escrito. É valorizar a pesquisa e o estudo sistemáticos, mostrando, em especial aos jovens, que ninguém tem o dever de estudar, mas sim o direito de aprender.

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Já que falamos sobre o Acordo Ortográfico, deixo aqui algumas regras sobre o uso do hífen:

Se o primeiro segmento de uma palavra for um elemento que não se usa sozinho em uma frase, como auto, semi, supra, pseudo, infra, neo, intra, contra, ultra, ante, anti, sobre, arqui, super, hiper, inter, sob, sub, dentre muitos outros, haverá o seguinte:

- Se o primeiro segmento terminar em vogal, usa-se o hífen somente quando o segundo segmento se iniciar pela mesma vogal ou por H; se se iniciar por R ou por S, essas letras se duplicam: semi-inconsciente, infra-hepático, mas infraestrutura, autorretrato, semisselvagem, ultrassom, antirreumático.

- Se o primeiro segmento terminar em consoante, usa-se o hífen somente se o segundo segmento se iniciar pela mesma consoante, por H ou por R: sub-bibliotecário, super-realismo, sob-roda, sub-humano, mas supermercado, hipertensão, subgerente.

Exceções: os elementos co, re, pro (“o” fechado), pre (“e” fechado), des, in trans e an nunca têm hífen: coerdeiro, cooperar, reeleito, proótico, preencher, desumano, inábil, transexual, anistórico.

2 comentários:

CESAR CRUZ disse...

Excelente texto, Dilson. Não é de hoje que acompanho o seu blogue, e sempre me surpreendo pela clareza com que explicas as regras do nosso Idioma. Sim, Idioma com maiúscula, para "dar respeito nessa turma" (como diziam nossos avós), coisa que anda tão em desuso, como você mesmo observou tão bem neste artigo.

Abraços paulistanos
Cesar Cruz

ajax5birasblog disse...

Excelente texto!