domingo, 15 de abril de 2007

Beija eu, beija eu, beija eu, me beija.

Arnaldo Antunes escreveu a poesia e a transformou em música. Marisa Monte a interpretou. Harmonicamente perfeita! Ambos foram magistrais. Antunes usou, porém, o que chamamos de licença poética para escrever seus versos. É sabido que licença poética é a liberdade que toma o poeta de transgredir as normas da poética ou da gramática, a fim de trabalhar com a rima, com a métrica, com a harmonia, despreocupadamente. Ele sabe Gramática. Já mostrou isso em outras composições. Não houve erro, portanto. Houve o uso deliberado de inadequações à Gramática padrão. Não corrigirei Arnaldo Antunes; apresentarei o que consideramos certo, de acordo com o Português culto. Alguns exames vestibulares podem apresentar tal composição e pedir que os jovens apresentem a forma adequada. Vamos a ela, então:

Os pronomes pessoais eu, tu, ele(a) nós, vós e eles(as) são denominados de pronomes retos e exercem somente uma função sintática em orações: sujeito, termo que pratica a ação de um verbo ativo (p. ex. vender), que sofre a ação de um verbo passivo (p. ex. receber) e que possui uma qualidade quando o verbo é predicativo (p. ex. ser). Uma maneira prática de descobrir quem é o sujeito é perguntar ao verbo Quem é que.......? A resposta é o sujeito do verbo.

Os pronomes pessoais me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as e lhes são denominados de pronomes oblíquos átonos e exercem várias funções sintáticas em orações. Hoje nos ateremos à função de complemento de verbo, que são os seguintes:

Objeto direto: complemento de verbo transitivo direto, verbo de sentido incompleto, que, por isso, necessita de um complemento, ao qual se liga sem intermédio de preposição. Por exemplo, o verbo vender: Quem vende, vende algo. É transitivo direto, pois necessita de complemento (algo ou alguém), denominado de objeto direto.
Os pronomes oblíquos átonos que exercem a função se objeto direto são os seguintes: me, te, se, o, a, nos, vos, os, as. Por exemplo:

Conhecer: Quem conhece, conhece algo ou alguém. É verbo transitivo direto, portanto, podemos usar os pronomes apresentados como complemento:

Ela não me conhece. Eu também não a conheço.
Ela te conhece. Nós nos conhecemos.

Objeto indireto: complemento de verbo transitivo indireto, verbo de sentido incompleto, que, por isso, necessita de um complemento, ao qual se liga por meio de preposição (por, para, a, de, em, com...). Por exemplo, o verbo obedecer: Quem obedece, obedece A algo ou A alguém. É transitivo indireto, pois necessita de complemento (algo ou alguém), denominado de objeto indireto, ao qual se liga por meio da preposição A.
Os pronomes oblíquos átonos que exercem a função se objeto indireto são os seguintes: me, te, se, lhe, nos, vos, lhes. Por exemplo:

Ela não me obedeceu. Eu também não lhe obedeci.
Ela não te obedece. Nós nos obedecemos.

Os pronomes pessoais mim, ti, si, ele(a), nós, vós eles(as) são denominados de oblíquos tônicos e exercem as mesmas funções sintáticas dos oblíquos átonos. Podem, então, exercer as funções de objeto direto ou objeto indireto. A diferença entre os oblíquos átonos e os tônicos é que estes só são usados COM preposição. Obrigatoriamente, esses pronomes são usados sempre com preposição: a mim, de mim, por mim, para mim, sem mim, em mim, etc. Quando, então, eles exercerem a função de objeto direto, complemento de verbo que não é usado com preposição, obrigatoriamente têm de ser antecedidos da preposição A. A preposição não pertence ao verbo, e sim ao próprio pronome. Por exemplo:

Ela não conhece a mim. Eu também não conheço a ela.
Ela conhece a ti. Elas conhecem a nós.

Voltemos, agora, à poesia de Arnaldo Antunes:

Beija eu, beija eu, beija eu, me beija.

Observe que Antunes brinca com os pronomes eu e me harmonicamente. Você sabe, porém, que somente um está adequado ao padrão culto. Qual deles? Vejamos (Hoje não nos ateremos à colocação pronominal me beija):

Qual o sujeito do verbo beijar? Quem é que beija? Sou eu? Não. Tu que beijas. Beija é o imperativo referente à segunda pessoa, tu; esse é o sujeito de beijar, então. Se o sujeito fosse a terceira pessoa, você, o verbo seria conjugado assim: beije.

Quem beija, beija alguém. Tu beijas quem? Qual o objeto direto do verbo beijar? Eu? Sim, porém o pronome eu não exerce a função de objeto direto, e sim o pronome me, ou mim, com a preposição A: Beija-me ou Beija a mim, caso o sujeito seja a segunda pessoa, tu. Beije-me ou Beije a mim, caso o sujeito seja a terceira pessoa, você.

Pronto. Essa é a explicação. Um pouco extensa, mas completa. Se Arnaldo Antunes quisesse escrever dentro do padrão culto do nosso idioma, escreveria assim:

Beija-me ou Beija a mim, se quisesse se dirigir ao sujeito tu.
Beije-me ou Beije a mim, se quisesse se dirigir ao sujeito você.

Um comentário:

CrazyBubble disse...

Má Dilson!
Eu li tudo. Te desenhei no caderno, depois eu te mostro. Abraço.

Obs: Voce lembra de mim sim, sou o G6 da 2p1.