terça-feira, 11 de setembro de 2012

Paralimpíada, parolimpíada ou paraolimpíada?

Algumas instituições e organizações resolvem mudar a escrita de palavras da Língua Portuguesa ao bel-prazer, sem levar em consideração sua etimologia nem as regras gramaticais. É o que aconteceu, por exemplo, com a palavra “muçarela” ou “mozarela”. Essas são as maneiras adequadas de se escrever a palavra cujo significado é “queijo napolitano de leite de búfala ou de vaca, geralmente de forma arredondada”. Ocorre, porém, que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento instituiu a grafia “mussarela” pela Portaria 364/1997, admitindo-se, também, a grafia “mozarela”. Ambas constam do “Codex Alimentarius”, expressão latina que significa “código alimentar”.


O que leva essas instituições a praticarem tais mudanças? Dizem elas sempre que o intuito é o de se adaptarem a algo maior, como “recomendação internacional” ou “cristalização da palavra devido ao uso constante”. Já que a maioria escreve assim, assim passará a ser o adequado, mesmo que os dicionários e gramáticas ignorem tal atribuição. Desde 1997, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento quer que se escreva “mussarela”; os dicionários ignoram-no e mantêm as escritas “muçarela” e “mozarela”.


Agora vem o Comitê Paraolímpico Brasileiro querendo mudar a grafia das palavras “paraolimpíada” e “paraolímpico” para “paralimpíada” e “paralímpico”. Essas palavras – paraolimpíada e paraolímpico – se formam com a junção do prefixo grego par(a)”, usado com a noção de, dentre outras, “semelhança”, e do substantivo “olimpíada” ou do adjetivo “olímpico” ou seja, são jogos semelhantes aos Jogos Olímpicos. O uso dos parênteses se deve ao fato de que o prefixo pode ser escrito de duas maneiras: pare para; aquele, quando o prefixo se une a palavra iniciada por “a”, como “paracetamol (par + acetamida + fenol); este, a todas as outras. Ao se juntarem, portanto, "par(a)" com olimpíada ou com olímpico, o "a" permanecerá, e o substantivo ou o adjetivo não sofrerão modificação alguma: paraolimpíada e paraolímpico.


É de praxe que o elemento seguinte ao prefixo “par(a)” seja íntegro, ou seja, inteiro, completo, a não ser que haja a junção de três elementos, como vimos em “paracetamol”. O mesmo ocorre com outros prefixos e elementos de composição, como “soci(o)”, “sof(i/o)”, “surd(i)”, “acr(o)”, dentre inúmeros outros. Veja alguns exemplos: sociocultural, socioeconômico – que também pode ser escrito socieconômico, sociopolítico, sofisma, sofomania (querer mostrar-se sábio), surdimutismo (o mesmo que surdo-mudez), acrópole, paratireoide, etc.


Além disso, o dicionário Houaiss traz as regras quanto ao uso do par(a):


1) Liga-se par(a) sem hífen a elementos iniciados por “s” ou por “r”, que têm essas consoantes duplicadas (parassífilis, pararreumático);

2) Liga-se par(a) com hífen a elementos iniciados por “h” (para-hélio, para-história);

3) Liga-se par(a) sem hífen a elementos iniciados por vogal, EM QUE ELA É MANTIDA (paraeconômico, parainfluenza, paraolímpico).


Observe, então, que há uma regra para a formação de uma palavra com a junção de par(a) com outro elemento: se ele for iniciado por vogal, esta se mantém. Não há razão, portanto, de o Comitê Paraolímpico Brasileiro mudar a grafia de tais palavras.


Portanto, caros leitores, mesmo que algumas instituições ou organizações queiram mudar a grafia de certas palavras, estas mantêm a escrita original. O adequado ao padrão culto da língua é “muçarela” ou “mozarela”, “paraolimpíada” e “paraolímpico”.

4 comentários:

Unknown disse...

Caro professor,
Eu não sou tão profundo na língua portuguesa quanto você, porém, me sinto indignado com essas tentativas de modificar, do dia para noite, o vernáculo. O nosso Comitê Olímpico Brasileiro poderia se voltar para sua função principal. E alguns órgãos de comunicação, os quais se dizem cultos, poderiam não fazer um papel tão ridículo em sair falando por aí "paralímpicos" ou "paralimpíada". Eu, se fosse jornalista, me sentiria constrangido em ser obrigado a pronunciar palavras inexistentes para cumprir determinações desses patrões.

Tatiana Costa disse...

Concordo com você, professor! A escrita original deve ser mantida!

Unknown disse...

Também concordo, Professor. Acho um absurdo essa mudança. A Academia Brasileira de Letras deveria ordenar ao COB algumas mudanças nas competições também.

gianluigiamico disse...

Concordo plenamente com o senhor, professor. Mas, depois da presidentA, tudo pode acontecer com a língua portuguesa, como o futchibol, o tchiatro, o diz a fio, o diz oito, o istudo,o diz impregado, a redundância de sujeito (...o ministro ele falou que a petição ela poderia ser feita...). Assassinam a língua portuguesa nos principais meios de comunicação.