segunda-feira, 19 de março de 2012

Salários-famílias ou salários-família?

Esses dias, um ex-aluno, hoje administrador de empresa, perguntou-me qual deveria ser o plural de ''salário-família''. Disse-me ele lembrar-se de eu lhe haver ensinado que, quando houver um substantivo composto formado por dois substantivos, em que o segundo indique tipo ou finalidade do primeiro, somente se pluraliza o primeiro elemento. E teceu vários exemplos: ''pombos-correio'', ''saias-balão'', ''navios-escola'', etc. Disse-me, porém, que, para garantir o acerto, pesquisou num dicionário de última geração e encontrou duas possibilidades: ''salários-família'' e ''salários-famílias''. O dicionário estaria errado?

Pois é, meu amigo administrador. O dicionário não está errado. O que ocorre é que essa regra sofreu uma grande mudança. Antigamente, só se pluralizava o primeiro elemento dentre dois substantivos unidos por hífen em que o segundo indique tipo ou finalidade do primeiro. O dicionário Aurélio, porém, desde a década de 1980, admite dupla pluralização. Aos poucos, outros dicionários e gramáticos passaram a aceitar o mesmo, e, há bem pouco tempo, o Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), o documento oficial de nosso idioma, que registra as palavras existentes na LP, também ''entrou na dança'' e aceitou a dupla pluralização: ''pombos-correio/pombos-correios'', ''saias-balão/saias-balões'', ''salários-base/salários-bases'', ''salários-hora/salários-horas'', ''salários-família/salários-famílias'', ''bananas-maçã/bananas-maçãs'', ''bananas-prata/bananas-pratas'', ''laranjas-pera/laranjas-peras'', ''laranjas-lima/laranjas-limas'', etc. O Volp, porém, registra apenas ''navios-escola'' e ''bananas-ouro''.

Por outro lado, os substantivos compostos ''banana-nanica'' e ''salário-mínimo'' (cujo significado é "trabalhador que ganha salário mínimo", este, o salário propriamente dito, sem hífen; aquele, o trabalhador, com hífen) têm tão somente um plural: ''bananas-nanicas'' e ''salários-mínimos''. Não são exceções à regra, caro leitor, mas sim substantivos compostos formados por substantivo e adjetivo, e não por dois substantivos, como os enumerados acima. Quando isso ocorrer, os dois elementos se pluralizam: ''amores-perfeitos'', ''ervas-doces'', ''cafés-solúveis'', ''bananas-nanicas'', ''salários-mínimos'', etc.

Quando, finalmente, houver uma preposição (de, a, etc.) entre os dois substantivos, somente o primeiro se pluralizará: ''pimentas-do-reino'', ''barcos a vela'', ''pés de moleque'' (doce), ''olhos de sogra'' (docinho), ''canas-de-açúcar'', ''bananas-da-terra'', ''laranjas-da-baía'', ''paus-d'alho'', ''caixas-d'água'', etc.

Alguns devem estar perguntando-se: por que uns com hífen; outros sem? Usa-se hífen em palavras compostas que formam espécies botânicas ou zoológicas, tenham duas, três ou mais palavras. Não se usa hífen em locuções em geral, formadas por dois substantivos entremeados por uma preposição, com exceção de ''água-de-colônia'', ''arco-da-velha'', ''cor-de-rosa'', ''pé-de-meia'', dos que têm apóstrofo entre o ''d'' e a vogal subsequente e das espécies botânicas e zoológicas. Por isso ''barco a vela'', ''pé de moleque'' e ''olho de sogra'' não têm hífen, mas ''pimenta-do-reino'', ''cana-de-açúcar'', ''banana-da-terra'', ''laranja-da-baía'', ''pau-d'alho'' e ''caixa-d'água'' têm.

2 comentários:

Edson disse...

Como sempre bastante elucidativo. Obrigado professor.

Edson disse...

Como sempre bastante esclarecedor. Valeu professor.