sábado, 12 de março de 2011

Sílabas poéticas e rimas: a preocupação com a estrutura de um poema

Os bons poetas, quando escrevem seus poemas, não apenas apresentam preocupação com a beleza de seus versos, com a estética; não apenas escolhem palavras de impacto nem somente querem afetar o leitor concernentemente à emoção. Têm também preocupação com a forma, com a estrutura de seus versos.
A começar pelas rimas. É bastante comum os poetas escolherem palavras que se apresentam no final de cada verso rimando entre si, ou seja, ocorre a repetição de sons iguais ou similares, em dois ou mais versos. Observe este poema de Fernando Pessoa, que ele denominou de “Autopsicografia”:

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda,
que se chama coração

Observe que o primeiro verso termina com a palavra “fingidor” e o terceiro, com a palavra “dor”. É a primeira rima do poema; chamamo-la de A.
A segunda repetição de sons iguais ocorre nos versos 2 e 4: “completamente” e “sente”. Chamamo-la de B.
A terceira rima é “escreve” e “teve”; é a rima C. Observe, porém, que essas duas palavras não formam uma repetição perfeita de sons, mas sim há sons similares: a mesma vogal com sons diferentes. Vale como rima da mesma maneira.
Quarta rima: “bem” e “tem”: D.
Quinta rima: “roda” e “corda”: E.
Sexta rima: “razão” e “coração”: F.
O esquema de rimas desse poema é, portanto, ABAB CDCD EFEF; as rimas são, portanto, alternadas.

Vejamos, agora, o que sucede com as sílabas de cada verso. Contar sílabas de versos é diferente de contar sílabas de um texto qualquer. Há duas exigências:
1- Conta-se somente até a última sílaba tônica;
2- Quando uma palavra terminar em vogal átona e a palavra seguinte se iniciar por vogal, ambas são contadas como participantes da mesma sílaba poética. Vejamos como isso ocorre:

1º verso: O poeta é um fingidor

As sílabas dessas palavras são as seguintes: o-po-e-ta-é-um-fin-gi-dor.

As sílabas poéticas, porém, são diferentes: conta-se até a última sílaba tônica: “dor”; a palavra “poeta” termina em vogal átona, e a seguinte se inicia por vogal: “é”, e há outra vogal imediatamente após: “um”; são três vogais subsequentes. As três, então, pertencem a uma sílaba só. Assim ficam as sílabas poéticas: o-po-e-taéum-fin-gi-dor. São sete sílabas poéticas.

2º verso: Finge tão completamente.

Conta-se até a última sílaba tônica: “men”: fin-ge-tão-com-ple-ta-men. Sete sílabas poéticas.

3º verso: Que chega a fingir que é dor.

Conta-se até a última sílaba tônica: “dor”. A palavra “chega” termina em vogal átona, e a próxima se inicia por vogal: “a”; a palavra “que” termina em vogal átona, e a próxima se inicia por vogal “é”: que-che-gaa-fin-gir-queé-dor. Sete sílabas poéticas.

4º verso: A dor que deveras sente.

Conta-se até a última sílaba tônica: “sen”: a-dor-que-de-ve-ras-sen. Sete sílabas poéticas.

E assim ocorre no poema todo: todos os versos têm sete sílabas poéticas.

Observe o último verso da terceira estrofe: “Mas só a que eles não têm”. As sílabas poéticas são as seguintes: mas-só-a-quee-les-não-tem. Por que “só” e “a” não ficam na mesma sílaba? Porque “só” termina em vogal tônica, não átona.

Em tempo: o ato de contar sílabas poéticas tem um nome especial: escansão.

5 comentários:

TV BANABUYÊ disse...

Caro professor Dilson, que maravilha a sua contribuição nessa rede! Parabéns e muito sucesso.

Marinalva Bezerra (professora e cordelista)

TV BANABUYÊ disse...

Parabéns!
Belo trabalho tens realizado!

Marinalva Bezerra (professora e cordelista)

luis carlos disse...

olá professor,
sou graduando do curso letras da UERN e,estou na fase de estágio. embusca de subsídios para uma aula sobre poesia, encontrei no seu artigo definições que me ajudarão muito.
abraço,
luiz nascimento ,Água Nova - RN

Artur dos Santos Saldanha disse...

Perdão Professor, apenas uma pequena correção no verso “O poeta é um fingidor.”, a metrificação lógica, quanto a junção das vogais é a seguinte: O/ poe/ta é/ um/ fin/gi/dor, — verso heptassílabo ou redondilha maior — por duas razões: A primeira é que a vogal “É”, sendo tônica interrompe união com a seguinte “UM”, porque teríamos dois impulsos de voz na mesma sílaba, portanto duas sílabas uma vez que a sílaba poética é fonética, pronunciada em um única emissão de voz com medição auditiva. A segunda razão que ratifica a metrificação em obediência ao padrão Parnasiano é no hiato “poeta” que foi convertido a ditongo poe/ta pelo recurso da Sinérese.

Abraços,

Artur dos Santos Saldanha
Historiador de encansão poética.

Dilson Catarino disse...

Obrigado.