quarta-feira, 18 de junho de 2008

“Que não seja imortal posto que é chama”

Vinícius de Moraes escreveu os seguintes versos:

"Eu possa me dizer do amor (que tive)

Que não seja imortal posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure".

Determinando o significado dos versos de Vinícius, chegamos à conclusão de que ele pretendia estabelecer uma indicação de causa: o amor não é imortal porque é chama (fogo), ou seja, já que o amor é chama, morre.

O que ocorre, porém, é que a locução posto que não é causal, e sim concessiva, ou seja, inicia uma oração subordinada que exprime oposição ao que é dito na oração principal, não sendo capaz, porém, de anular ou impedir o fato mencionado. As conjunções e as locuções conjuntivas concessivas são as seguintes: embora, conquanto, inobstante, não obstante, apesar de que, se bem que, mesmo que, ainda que, em que pese, por mais que, posto que.

Vinícius se utilizou do que chamamos de licença poética, que é a liberdade que toma o poeta, algumas vezes, de transgredir as normas da poética ou da gramática. Caso ele não se utilizasse dessa prerrogativa e quisesse escrever dentro das normas cultas da Língua Portuguesa, teria de usar uma conjunção (ou uma locução conjuntiva) causal, que são as seguintes: porque, porquanto, já que, visto que, se, como (só no início de frase), uma vez que. Teria, então, de fazer isto, dentre outras possibilidades:

Eu possa me dizer do amor (que tive)

Que não seja imortal visto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

Um comentário:

g. disse...

genial!!! gostei...