quarta-feira, 11 de outubro de 2006

A coisa e o coisinho.

Certa vez perguntei ao meu amigo José Milanez, excelente professor de Literatura, de Português e de Redação, exímio escritor e meu ex-professor, por que ele não publicava um livro. Ele me respondeu que o que teria a escrever alguém já escrevera, que seria, então, perda de tempo, pois não traria novidade alguma. Essas palavras do Mila me fizeram ficar sem escrever um bom tempo; cada vez que eu pensava em escrever uma poesia, ou mesmo alguma prosa, eu me lembrava daquele diálogo. Era como se ele estivesse ao meu lado, dizendo: “Nada é novidade! Alguém já escreveu sobre isso. Esqueça!”. E eu desistia. Mas desisti de desistir e voltei a escrever. Sei que o que eu tenho a dizer alguém já pode ter dito, mas não da maneira como eu quero dizer. Direi, portanto, tudo o que tenho a dizer (Será que alguém já disse isso?). Resolvi, hoje, escrever asneiras. Vamos, então, a elas:

Sei que muitos já escreveram alguma coisa sobre a palavra COISA, mas eu não resisti: Alguma coisa aconteceu comigo que me trouxe coisas desconexas a respeito. Isso aconteceu depois de conversar com certa pessoa que, em quinze minutos de colóquio, falou sete vezes a palavra coisa (dizem que sete é número de mentiroso, mas foi isso mesmo. Sete vezes coisa). Chegou ao absurdo de, num momento em que o raciocínio lhe faltou e ele não sabia como terminar a frase que começara, findou-a com “e coisa”. Assim. Desse jeito, mesmo. “blá, blá, blá, piriri, piriri, ... e coisa!”. Fiquei sem entender o que ele queria dizer, mas ele saiu feliz, pois julgou ter encerrado o assunto, e foi procurar outra coisa para fazer.

Coisa. Palavra quase que totalmente desprovida de sentido, mas com uma infinidade de usos e abusos. Tente explicar o significado da palavra coisa”; alguém consegue? Ninguém! Mas as coisas que inventam para usá-la chegam a ser absurdas:

─ E, aí, beleza? Como vão as coisas?
─ Ih, meu; a coisa tá feia. Tem acontecido cada coisa comigo que, se eu te contar, cê nem acredita.
─ Que coisa, cara! Ânimo! Cê não pode deixar essas coisas te deprimirem, não. ─ Ó! Escuta uma coisa: Cê se lembra do ... como é que é o nome dele mesmo, meu? Cê deve lembrar, cara. É o coisinho que namorava aquela coisinha deliciosa da Cris. Lembra? Então. Ele freqüenta um lugar que faz umas coisas para ajudar os outros. Já me contaram cada coisa deles! Aliás, por aqui não se fala noutra coisa.
─ Ah, não sei, não, meu. Eu não tenho coisa alguma a ver com essas coisas de macumba...
─ Que macumba, o quê, cara! Eu não entro nessas coisas por coisa nenhuma. A coisa lá é de energia; essas coisas transcendentais...
─ Ah, não, meu. Fique tranqüilo. Deixe que eu cuido de minhas coisas.
─ Então, tá, cara. Mas, qualquer coisa, me procura, belê?

E assim milhares e milhares de coisas surgem nos diálogos cotidianos sem que ninguém se aperceba de que há um vício nesse uso abusivo da coisa. O maior absurdo que eu já ouvi em relação à coisa foi a frase: "Eu tô coisando umas coisinhas por aí”. Essa é a campeã.

Os músicos e os poetas também aderiram à coisa: Eu me lembro de uma música que uma professora vivia cantando pelos corredores da escola: “Ô, coisinha tão bonitinha do pai”. Ela cantava e dizia: “Em se tratando de música, essa é a coisa mais linda que já ouvi”. Isso é que pode ser considerado coisificar a coisa que o coiso coisou.

A coisa tomou conta do linguajar brasileiro. Até o Presidente Lula Molusco se utiliza da coisa sistematicamente: cada vez que lhe falta uma palavra (e são centenas de milhares as que lhe faltam), ele busca ajuda na coisa:

“A coisa mais importante para o Brasil é que as coisa melhorou depois de eu assumir essa coisa aqui”;
“Não sei nada dessas coisa que aconteceu”;
“Corrupção é uma coisa que existe no ser humano de qualquer partido”;
“Se há uma coisa que eu posso dizer é que ética e humildade é uma coisa que só eu tenho”.
“A traição é uma coisa que me magoa muito”.
“Aos traidores só posso dizer uma coisa; Vocês me traíram!”.
“Meu povo, essas coisa que andam falando de mim são coisa que as elite inventou”.
"Eu sou a melhor coisa que já nasceu no Brasil!". Que coisa, hein?

Agora, cá entre nós, não existe coisa mais filosófica que a frase “Uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa”. E eu arremato: Há coisas que não são uma coisa nem outra coisa; são, então, coisa alguma. Mas a frase mais linda é a que Teté usa quando chega perto dos cachorros e dos gatos aqui de casa: “Coisa mais querida da vida!”.

15 comentários:

Valerie disse...

Professor! Que loucura!
A palavra "coisa" é um vício de linguagem! Não havia me tocado disso.
Ontem escrevi uma crônica e fui ver quantas vezes tinha escrito "coisa". Por incrível que o pareça, uma só!srsrs

Abçs e bom feriado!

http://sessentaecinco.blogspot.com

Anônimo disse...

Caro Prof
Há tempo esperava producao nova e achei razoavel a explicacao sobre a sua ausencia (de producao).
Diverti-me mt com seu texto... mt bom... o senhor realmente sabe "da coisa"

Professora Célia Peres Martins disse...

Gostei das "coisas" bem ditas. Benditas as ditas sobre Milanez de quem me lembro também com admiração. É certo que cada coisa tem seu espaço. Muita coisa já me salvou por falta de outra coisa. Um abraço, Dílson . Qualquer coisa que você escreva é coisa boa !

Deia disse...

Que coisa professor, nunca tinha reparado nisso de se falar tanta "coisa" assim , vou ficar atenta ao que falo pra ver como estou me saindo.Estas coisas são mesmo complicadas, pegamos estes vícios e nem nos damos conta.
Mas que linda esta Teté não? Até falando coisa ela se sai bem, rsss
Lindo demais,
linda tarde

NihiL disse...

Essa história de escrever muita coisa com a palavra coisa é mesmo uma coisa! hehehe.. Muito bom o texto, muito divertido. Realmente quando a coisa se repete muito é que a coisa fica feia! Brincadeiras a parte, parabéns pelo texto e continue escrevendo "coisas" ;) Sobre isso de escrever ou não, me lembrei da música "há muita gente repentindo a mesma frase, há palavras que nunca são ditas, ninguém igual a ninguém" .. e assim vai. Abraço..

Nicolau disse...

Que coisa fantástica!
Muito bom mesmo.
Parabéns

ilibado(rodrigo) disse...

parabéns prof pela sua forma de versejar, indubitavelmente você é um dos melhores que conheço, continue assim escrevendo algo inefável e sublime!!!

ilibado (rodrigo) disse...

quero deixar o meu e-mail para uma possível resposta, e obrigado por disseminar cultura e sabedoria no seu maravilhoso site. Eu indico a todos os meus amigos. meu mail é inupto@hotmail.com. Aguardo respostas!!!

ilibado (rodrigo) disse...

A coisa, de tão errada já é considerada correta no âmbito de algumas pessoas, atinentes à falta de um pouco de leitura. Pois a mesma é considerada um vício da linguagem e também muito usada por falta de argumentos ou pelo esquecimento da palavra correta.

Anônimo disse...

Eu nunca mais havia lido um artigo que me vizesse rir tanto, pois além de engraçado é super educativo. Parabéns! Gostaria de ter aprendido português assim.

Anônimo disse...

a de hoje foi a melhor - mrr

Anônimo disse...

Oi achei o site da gramatica on line para pedir ajuda para o uso da senhora vírgula, olha que vergonha. Mas acabei por descobrir seu blog e adorei este post sobre "coisas". Muito bom mesmo, pode até ser sei lá coisa sem explicação mas estou escrevendo um livro e não quero fazer muito feio na redação. Muito bom mesmo o texto da "coisa".
Um grande abraço
Valéria

Marisa disse...

Parabenizo, o professor pelo texto, continue assim, melhorando nossa linguagem, nossa cultura e nossos conhecimentos. Um abraço.

Anônimo disse...

Gostaria de lhe pedir dicas para que eu melhore o meu portugues e minha redação.Já estou ficando cansada, e gostaria de lhe pedir se algum modo do senhor indicar leituras de jornais e livro que me ajudem.
Gostaria de parabenizar o incentivo que o senhor dar a nossa lingua portuguesa que então tripudiada, com a influencia norte americana no caso de inglês.
VEnho pedir urgencia na resposta.
e-mail:tamyrestm@yahoo.com.br

beto disse...

Professor vou prestar um concurso público e queria saber se você pode tirar algumas dúvidas que eu tenho com a lingua portuguesa.