terça-feira, 26 de setembro de 2006

A morte de meu irmão

Era o fim. Meu irmão iria morrer. Eu não suportei ver aquela cena. Corri para trás de casa e me encolhi no canto onde estavam os quatro ratinhos que haviam nascido uns cinco dias atrás, pelados ainda, todos rosa; se não me engano com os olhinhos esbugalhados, mas ainda dentro das pálpebras. Não sei; essa é a lembrança que carrego comigo daquele dia. Os olhinhos esbugalhados dos ratinhos pelados. Não me lembro dos pais deles, mas me lembro muito bem deles, que cresceram um pouco e sumiram-se dali rapidamente.
Eu tinha só quatro anos e já iria encarar a morte! Meu irmão iria morrer. Tive certeza disso quando o vi saindo do milharal deixando um rasto de sangue pelo chão arenoso de nosso quintal. Vi também o facão que ele usara jogado entre os pés de milho, todo vermelho. Uma de suas pernas estavam ensangüentadas, e ele corria gritando de dor.
De lá de trás de casa, ouvi minha mãe gritando, chamando pela vizinha e perguntando sobre mim. Ninguém sabia onde eu estava. A vizinha veio gritando também. E meu irmão chorava de dor. Aquela gritaria parecia não ter fim. Minha mãe e a vizinha gritavam; meu irmão gritava e chorava de dor. Mais vizinhas correram até minha casa; mais gritos de mulheres desesperadas. Logo depois, porém, veio o silêncio. Nem choro, nem grito, nada. Silêncio total. Eu não tinha coragem de sair dali. Fiquei olhando para os ratinhos, esperando que eles fizessem alguma coisa, mas eles nada faziam; eram muito pequenos; eram frágeis demais. Não tinham nem um pelinho; eram lisinhos, lisinhos. Parecia até serem transparentes. Um deles parecia uma chupeta. Parecia a minha chupeta!
Naquele momento, lembrei-me de Deus. Lembrei-me de que minha mãe sempre dizia que Deus tudo pode. Comecei a rezar desesperadamente, pedindo a Ele que salvasse meu irmão, que, se ele já tivesse morrido, o trouxesse de volta. Naquele momento fiz minha primeira promessa: prometi que deixaria de chupar chupetas se trouxesse meu irmão de volta. Minha mãe sempre pedia a Deus que eu deixasse de chupar chupetas, mas eu era meio viciado nisso; não conseguia ficar sem minha chupeta cor-de-rosa. Foi o meu primeiro vício...
Cansada de pedir e nunca ser atendida, um dia minha mãe jogou minha chupeta no fogão a lenha que havia na cozinha de casa e saiu para o quintal. Eu peguei um pedaço de madeira e fui salvar meu objeto de adoração: puxei-a para fora do fogão; ela caiu e grudou-se à minha perna, deixando uma cicatriz no formato do bico da chupeta. Fiquei queimado, mas mostrei à minha mãe o quão importante era aquele vício para mim. Ela passou a permitir que eu me satisfizesse com a chupeta, numa tentativa de me compensar a queimadura.
Aquele ratinho-chupeta me deu a idéia: prometi nunca mais chegar perto de uma chupeta se meu irmão não morresse. Fiquei ali, conversando com os ratinhos, comigo mesmo e com Ele, pedindo, pedindo, pedindo. Ele nunca atendeu aos pedidos de minha mãe, mas comigo poderia ser diferente, já que agora era um caso de morte, e eu sempre havia sido bonzinho como minha mãe sempre pedia.
Mais tarde, ouvi a voz de minha mãe já dentro de casa, bronqueando com meu irmão, dizendo que nós, as crianças, não tínhamos que ir ao milharal tentar colher milhos sozinhos, que era perigoso, que ele teve sorte de apenas ter cortado o joelho, que ele não sabia manusear o facão adequadamente, que tinha de esperar meu pai chegar para pegar milho, blá, blá, blá... Entrei correndo em casa e vi meu irmão com a perna enfaixada. Devem ter dado uns doze pontos no joelho dele. Foi um corte e tanto. Ele errou, quando tentou cortar uma espiga de milho, e acertou direto o seu joelho esquerdo.
Quanto à minha primeira promessa, também foi a primeira a não ser cumprida. Se Deus era tão meu amigo assim, a ponto de salvar meu irmão por eu lhe ter pedido isso, continuaria sendo meu amigo e permitiria que eu mantivesse meu pequeno vício. Assim, com a anuência de Deus, continuei com as chupetas até os seis anos de idade.

5 comentários:

Deia disse...

Estou me deliciando em suas palavras.
Que texto lindo, suave, gostoso de ler.
Fico imaginando tudo que passou na cabecinha dele, como foi difícil fazer esta promessa.
Perfeito.
beijos

Deia disse...

Prometo continuar voltando, mesmo com um pouco de vergonha, por causa dos erros de português, mas quem sabe assim aprendo.
Lindo dia
Beijos

Aluísio disse...

vício






do Lat. vitiu


s. m.,
hábito de proceder mal;

costume censurável ou condenável;

costumeira;

hábito prejudicial;

libertinagem;

defeito;

acção indecorosa que se pratica por hábito;

viciação;

erro;

dolo.

Loraine disse...

Oi profº Dílson
O texto é lindo
Adorei seu blog
Beijo
Loraine

Deia disse...

Passando pra desejar um ótimo final de semana, e dizer que estou ansiosa pra ler mais.
Beijos